Thursday, February 05, 2009

Amor.com

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ORFEU B.








MARÇO 2004























DEDICADO À MENINA MARINA, AUTORA DO POEMA





A NOITE


A NOITE ESTÁ FRIA ALONGADA.

ESTRELAS A BRILHAR COM AS SUAS FORMAS

E EU PENSANDO: SERÁ QUE LÁ AO LONGE

A LUA SENTE VIVE VÊ PROCURA.

A LUZ DO DIA DÁ ALEGRIA

SERÁ QUE TAMBÉM VIVE VÊ PROCURA

CLARO QUE NÃO

MAS NA NOSSA IMAGINAÇÃO HÁ TUDO

E TAMBÉM DEVE TER A LUA E O SOL

A VOAREM A SENTIREM A PROCURAREM E VEREM.




15 ABRIL 2001.










Tinha deixado a torpe arte dos versos


A Gastão Cruz



A mão incontinente no alinhar precário palavras

anos mudos esquecidos

sob o Sol morno da Lisboa idioma a casa.



Não seriam os versos que salvariam

noites ruidosas

nem dos tercetos a arte

por mim nunca encontrada.


Conheço mais torpe meu outro ofício

seus-meus erros

foi do Tejo o paralisante memento carregado pelo vento.


Poderia a prenda recusar da noite a breve estrofe

menos so não ficaria a alma fria se

na penumbra fossem os grãos dispersos.

Tinha planeado deixar a torpe arte da vida

mas escrevi mais um erro incompetente o verso.

*

Jardim de gestos



A intempérie polindo a

caverna profunda

dum inverno na alma;

nas águas dum Março obscuro

sob a pele enrugada

o pulso a cada palavra mais débil.


Na concavidade da ígnea rocha

a geologia duma esperança fóssil

que é ferida aberta pela lava da lembrança.


O hálito quente duma solidão de seda

em ilhas num idioma bíblico e ancestral;

mar contra sal corpo

espuma duma fadiga milenar

ao concluir-se que é neste desnorte que se há de viver.


A precariedade de qualquer solução

ilusão de estar a um estender de braço do salto

no coração do turbilhão que é só passado

e nunca se realiza.


Uma estátua para cada frustração

e um jardim de gestos singelos

sob as gotas pesadas duma chuva

que nunca pára.



*

































Pessach



Avós raízes mais fortes da reminiscência hebráica

o Pessach.

Evadimos donde escravos éramos

para compreendermos

do deserto o fogo

do pão ázimo as dez leis.



Do tempo prático escravos ainda somos

deste Egipto outro nome.

Não pretendia elaborar linhas estéreis

para a fuga que sonhava fértil.



Algum ouvido invento

para comigo também deplorar

a demolição das casas

e dos pobres o massacre.



É mais amarga a injustiça no Pessach

quero-a na companhia

dalguma indignação.


Um sofrer na concha

do orgulho silencioso

destilando do desespero

para a luta a seiva.



O grito contido nas imagens de cada oração

sentido recíproco

que se constroe no ombro a ombro

da marcha.



É no dividir do pão ázimo

que se entende do Pessach a nova.

Já não somos como éramos depois

do vinho e o sabor das raízes fortes.




*













Shabat Poema



A utopia na cruel semana espessa

é o shabat que nunca foi.


No descanso semanal das equações semi-vivas

o sonho de palavras marcadas com o dedo de deus

rasto através do enigma desvendado

ainda que ausente a mais mágica das letras.


Por entre as brumas dum diálogo tosco qualquer

linhas candidatas

assumem seus postos

nas trincheiras que defendem o poema.


No ápice do combate

a morte inevitável da poesia

que jaz no campo de batalha dum pedaço de papel.

Durante a contagem das palavras sobreviventes

um breve epitáfio é escrito

enquanto as primeiras equações

acordam com a aurora da semana que se inicia.

*

Contágio inflamatório



A dúvida cinge o exagero

perturba da fala o gume

inteligentemente desencaminha o discurso inútil.



A dúvida da descoberta a mola

subtil ginástica de lógica

transformando o mistério apolíneo

na obviedade obesa

que cristalizada repete já outra inquietude.



A dúvida nunca se resume no espelho perfeito

imagem a morrer raquítica

na certeza dócil

da ignorância máxima.



A dúvida com suas muitas patas

a subir e descer pelo corpo

num contágio inflamatório

exigente da resposta grave, precisa,

inadiável

que aceita a forma espaço compacta

do poema ou equação.



Não há na solidão da solução

erro ou certeza

é duvidoso o exercício de capturar

do resultado a solidez

que inquieto já é outra pergunta.



*



























Circuito Integrado


Falam-me dum verbo electrónico

integrado

na ágil invasão das mentes porosas

no circuito das poltronas

consonantes com o conforto

de soluços fabricados já sem dor.



Ensinam-me como descodificar

dos electrões a palavra

no grande engano

das noites hipnóticas.



As paredes já não dividem

este uníssono de ecrãs

a somar no uniforme pensar colectivo

da democracia o simulacro.



Contam-me que o éter veta qualquer mentira

são do nosso tempo estas imagens

que os olhos escolhem da frequência a verdade.



Virtuais sempre são as paisagens

que nos sonhos habitamos

não há como defender a musa do verso pobre

desnuda da disciplina publicitária.

Os tubos de electrões dentífricos

estão autorizados a simplificar o resto

e já não se desliga versão electrónica do poema o futuro.



*


























Copiar o Tejo


Aprendemos com o rio

o sistema de suportar os outros elementos;

não nos roubam o caudal

de sermos mais calmos

que o tempo das águas

e o possível de cada margem.



Não é o fluxo de passarmos

que nos arrasta para as margens impróprias

correntes são de sermos contra

a luz reflectida

de cada essência o tempo certo.



É determinista a condição caótica

de estarmos fundeados no que somos

não há como se evitar o mar

no âmago do relógio é o vento o escultor de todos os gestos.




*



25





Não seria neste Abril

que faríamos, àforça dos cravos,

o Sol para todos mais brilhante.

Dizem-me que não há sequer a mesma urgência, não creio.

Adiamos o mudar mais forte para uma primavera que menos fluida

não esteja interrompida.

Enquanto ganho forças, minha filha fica sendo a minha revolução.



*





















Madredeus


Guitarras orgulhosas

criaram da voz sua pureza

num sonhar certo o canto perfeito

do mundo reinventado.



*






























Revolução, nós que te amávamos tanto !


A Lula, Salvador Allende, Cohn Bendit, Geraldo Vandré e tantos outros



Surpreender-se com a profundidade dum amor submerso

ao despertar com o coração carregado por baladas de mobilização.

Nós que sonhávamos com alamedas de homens melhores e sociedades mais justas,

que pensávamos que o futuro seria nosso

tinhámos apenas lágrimas como companheiras.

Descobrimos que os actos não redimem as manhãs silenciosas.


Habitar no labirinto longínquo,

tão longe de ti

�revolução

que nós amávamos tanto ...

Nós que desejávamos o plural das coisas

não sabemos voltar aos livros que te inventaram

ou às lembranças que nos agitavam o sangue;

as palavras de ordem perderam-se ao longo do

caminho

e os heróis parecem estar todos no passado.






Quando aprendemos a viver na solidão dum

futuro de tristes meandros

os sonhos parecem ser anacronismos platónicos;

mas há manhãs que despontam timidamente

e executam adágios que

emprestam sentido à esperança.

A miragem da revolução renasce na rapsódia

de todos os dias.

Nas dobras do coração que insiste em cantar a vida

mesmo no seio escuro do desespero.


*


























CORAÇÃO DE ESTUDANTE



JUNTO DO AMANHECER INCERTO

DA RETARDATARIA ESTRELA O BRILHO

ÁGUAS FUGAZES DUM LAZULITE PÁLIDO

TERRITÓRIO VAGO

DO PASSADO MAIS SÓLIDO

QUE O ESTAR NAS VEIAS DO REAGIR APENAS.



QUERÍAMOS A REGIÃO GRÁVIDA DA NECESSIDADE

DE MUDAR TUDO

CONQUISTAR AS MURALHAS DO CREPÚSCULO E

RETARDA-LOS TODOS.

ERA SEMPRE O CORAÇÃO TRANSBORDANTE

RASGANDO IRREVERENTEMENTE TÉDIO E MEDO DOS DICIONÁRIOS,

TEMPO DE ESCULPIR O CORPO DA AMANTE

NO MÁRMORE MAIS RARO DO INSTANTE.









ERA BANHAR-SE SÓ

NO OCEANO DO TUDO POSSÍVEL

DOS INFINITOS AO DOBRAR DA ESQUINA

DO MUNDO PERFEITO

CONSTRUIDO COM CUBOS DE GELO DE PAIXÃO

NUMA IDOLATRIA SOL DE

DERRETER QUALQUER DÚVIDA.





*






























A Jusante



DA VIDA A CONTRACAPA

COM ESCASSAS INSTRUÇÕES PARA ULTRAPASSAR A ESQUINA DA INJUSTIÇA.



O BEIJO DA PRESENÇA INVENTADA

AMOR SEMPRE SONHADO.

IMAGEM PROCURADA

E RETIDA NA SALIÊNCIA DO PENSAMENTO

DE REAGIR

E SUBSTITUIR À FORÇA

A SENSATEZ DA ESPERA.



HÁ QUE SE DOAR SANGUE ÀS CAUSAS

QUE FAZEM AS FONTES LATEJAR

E RECUSAR A INÉRCIA VÍTREA

DE SE ESTAR À ESPERA DAS BADALADAS DA HORA.







NO CENTRO DUM SENTIR PRECÁRIO

REMANESCENCIAS DE AFIRMAÇÕES INCAUTAS

SESTROS DECORRENTES.




NAS ESCARPAS DUM AGORA INSÍPIDO

TER A MONTANTE

A CERTEZA QUE NADA PODERIA TER DADO CERTO.



OLHOS IMPACIENTES

JÁ MIRAM A JUSANTE

A FOZ IMPRONUNCIÁVEL.



*
























Aceno eu mudo



O aceno mudo

quando partem os comboios

deixando o momento partido.



Vão para as cores mais lisas do paraíso

concêntrico ao sentimento puro

ou para um desterro Auschwitz

no seio da mórbida maquinaria da certeza.



Nunca o saberei,

refém onírico que estou da limpidez do Sol poente.



Que frio mistério claro agora

poderia apagar da memória

o calor dos comboios a partida ?







Não seria o futuro perto

ou o aceno eu surdo.

Nem o poema tenso

trespassado de sentidos clorídricos.



Talvez o poderiam olhos sem luz

que entendem das trevas as nuances

mais capazes de encontrar da vida um arrepio.



Comboios nunca voltam

vamos nós ao seu encontro.




*

















PEDRAS SEMI-PRECIOSAS


DISPERSORA A MEMÓRIA

NUM RETER VARIÁVEL

NO ARQUIVO GELATINOSO

DA LEMBRANÇA A CHAVE.


NÃO SÃO OS DIAMANTES

QUE ME DEIXAM

NEM A PARTÍCULA DE SONHO QUE ME GUIA AO LONGO DO DIA CINZENTO

SÃO SEMI-PRECIOSAS AS PEDRAS QUE ME FOGEM

ÍNFIMAS FRACÇÕES:

A IMAGEM DA AREIA ARRASTADA PELO VENTO

A LUZ DECOMPOSTA PELA ESPUMA DA ONDA PREGUIÇOSA

O BEIJO ADOLESCENTE SOB A LUA QUE SE APAGA.


FRAGMENTOS QUE DEVERIAM FICAR

POLARES NA ESTRELA DA VIDA

DUPLAMENTE DISSIPADA.








VEM DO PASSADO

O PROPÓSITO PERDIDO

NAS ENTRELINHAS DA REMINISCÊNCIA.

É MAIS LENTA A SEGUNDA VIAGEM

POR ENTRE A PAISAGEM MINERALIZADA

DA FOTOGRAFIA ENVELHECIDA.


SABERIA INDICAR O LUGAR PERFEITO

DA MEMÓRIA DESCOLORIDA

REENCENAR A EMOÇÃO SOBRE A FOLHA D'ÁGUA

DE CICATRIZES QUE SÃO MENOS DORES QUANDO ABERTAS.


É MAIS FRIA A INVASÃO INESPERADA

DAS SOMBRAS DO DRAMA SURREAL

NO TEATRO CORROÍDO INSECTOS.



FINALMENTE NA MEMÓRIA

O AGORA DUMA ESPESSURA COMPACTA

NA CERTEZA ENGENHEIRA

DO PROJECTO PERFEITO

EDIFICADO NAS NUVENS

DA MEMÓRIA REENCONTRADA.


*



METALURGIA



PROCURÁMOS IRREGULARMENTE FORJAR

COM PALAVRAS ESSENCIAIS OS METAIS NECESSÁRIOS;

TINHAM CADA UM SEU TEMPO E FUNDIDOS

ERAM ESTRELAS FLUINDO ATRAVÉS DE POEMAS INCANDESCENTES.

NÃO SERIA O CALOR MOLAR VARIÁVEL DE CADA METAL SUA POESIA

NEM SERIA ESTA PERIÓDICA

COMO O MODO DE GOLPEAR COM CORAGEM

O CALOR EVANESCENTE DAS PALAVRAS.



TENTÁMOS TAMBÉM MOLDAR METAIS COM PALAVRAS NECESSÁRIAS

DO OFÍCIO A ASTÚCIA NO MEDIR DE CADA POEMA A DUREZA

FORTALECENDO-O COM O METAL

CORRECTAMENTE TEMPERADO.

NÃO HÁ ESCASSEZ NA TÉCNICA DE PALAVRIZAÇÃO DOS METAIS



HÁ AMÁLGAMAS DE METAIS E PALAVRAS

NOBRES COMO O MOMENTO DA DESCOBERTA;

JUSTIFICA-SE SUA VALIDADE NA EXACTIDÃO DE CADA IMAGEM NA

CONSTELAÇÃO DOS METAIS POLIDOS DO POEMA.




NO FAZER E REFAZER ARTESÃO

FORJÁMOS DA VIDA UMA POBRE NOBREZA

INCANSAVELMENTE NA ARTE DE METALIZAR POEMAS

E INVENTAR AMÁLGAMAS A CADA DIA MAIS PERFEITAS.



CONSUMIMOS AS MELHORES HORAS A EXPERIMENTAR

COM PALAVRAS ENCONTRADAS CASUALMENTE

E ESPERÁMOS NOITES CLARAS EM VIGÍLIA

PELA MELHORIA DA QUALIDADE DOS METAIS.




*






















Fernando Pessoa Revisitado


Deixara na torrente de páginas

da solidão um sangue

nas entrelinhas

do sentir múltiplo

de vidas mais fingidas

que as vividas.


Dias claros ou chuvosos

viagens jamais concretizadas

eram-lhe completamente indiferentes,

cadinho para a poesia

numa prosa de contar

como cada perfil

aceitou resignado seu destino

de simplesmente escrever.


Impossível não supor os

heterónimos

como máquinas perfeitas de traduzir

sentimentos em palavras.





O homem real nunca fora menos que lenda

no mundo platónico

dos que amam a poesia.



*





































A ORIENTE



MANEIRISMOS SUBTIS E VELADOS

CIRCUMNVOLVEM A CRUEZA DOS FACTOS

CONSTRUINDO DA MENTE UM ORIENTE

ADEMANES DE MODOS MAIS NOBRES.



ADORMECIDOS NOS INTERESTÍCIOS DO TEMPO

ESTAR QUAL VULCÕES

AMEAÇA EXPLODIR ANSIEDADES

EM CUJAS ORLAS A VIDA ESCULPE UMA GRANDE SOLIDÃO

NA PEDRA.



A ORIENTE,

LABORES EFÉMEROS

EDIFICAM SOBRE A PENUMBRA DO SILÊNCIO,

SEIXO APÓS SEIXO,

CATEDRAIS NA ETERNIDADE.




*




Dilema linguístico



Fora das águas a invasão

interrompendo o estar sobre a branca areia;

ficara o ser menos intenso

ao habitar a dicotomia indelével

de sentir-se íntimo

ainda que não se estivesse.



Estaria quando do agora o foco

no fogo fátuo de reagir às propostas do tempo concreto.

Ser não exige declarações tão peremptórias

vai-se sendo ao longo do caminho

emergindo do rumo uma definição.




*











ESFORÇADOS



DO EXERCÍCIO O ASCETISMO

NO FILTRAR DE ALGUNS CONTEMPORÂNEOS

A MIASMA PRODUZIDA.


SÃO SOMBRIAS AS PAISAGENS

QUE PRETENDEM EDIFICAR

E MENORES OS BALDIOS QUE QUEREM GOVERNAR.



TANTOS ROMPANTES DE PATRIARCAS DE APÊNDICE

QUE SÓ LHES RESTA NOMEAREM-SE A SI MESMOS

DITADORES DAS CABEÇAS DE ALFINETE.



PLANEIAM TÃO AFINCANDAMENTE

MEU AUTO DA FÉ

QUE ME SINTO CINGIDO

A LHES AGRADECER O ENGENHO

E AS LONGAS HORAS DE LABOR INTELECTUAL

QUE ME SÃO DEDICADAS.


*




Poema do Orçamento de Estado




As sombras discutem animadamente a lógica dos cifrões.

O mau tempo dispersa os discursos que hipnotizam mentes propensas ao

contágio. Parece não haver imunidade possível contra a retórica baseada na

ignonímia humana e nas frustaçõe decorrentes. Estes cobradores de fraque

constroem uma ideologia de Babel em cada esquina enquanto frequentam cursos

de formação para vampiros. Imaginam domesticar as criaturas e privatizá-las

para a exploração comercial dos seus serviços.




*






















MODELO CÓSMICO PADRÃO




EXACTA

A COMBINAÇÃO DE PALAVRAS

QUE SÃO METEORITOS IMPREGNADOS

DA DESCOBERTA A SÍNTESE.



LÚCIDO O BRILHO DA AURORA AUSTRAL

NOS SÍMBOLOS DA EQUAÇÃO DO INSTANTE

INTUIÇÃO MAGMA PROFUNDA

DO PARADOXO NUCLEAR

NO MAGNETO DA VERDADE.



ASSUME-SE SER A SOLUÇÃO O POEMA

METAMORFOSE

DEVIR DA SIMETRIA BOTÂNICA

EM CONSERVAÇÃO DA LEI O ENIGMA.



SEJA O ACELERADOR DA LINHA PARAÍSO PERFEITA

DA SUBSTÂNCIA PRIMORDIAL A ANÁLISE

DE INVENTAR

DAS INTERACÇÕES

A MAIS ELEGANTE

SOB O MICROSCÓPIO

DO FUNDAMENTO A TEORIA.



SEJA UM TELESCÓPIO O POETA

A DESENHAR NAS GALÁXIAS

A POESIA RAREFEITA

NAS CAMADAS DA MAQUINARIA

DE ESTAR NO CENTRO

DA PAIXÃO CURVILÍNEA DE VIVER NO FLOEMA DO MISTÉRIO.







*


















CINZELADURA


NÃO OBTERIA DA ESCULTURA QUALQUER ARTE

CINZELANDO O SILÊNCIO

E O ESPAÇO DEIXADO VAGO

DA ESCOLHA MAIS UM ERRO.


SERIA O TRANSFORMAR INSTÁVEL

DA PRIMAVERA O MUNDO

NA SURPRESA DE CONTACTOS

COM ESTRELAS E IDEIAS DE CRISTAL.


EVOLUE NA PUREZA DA NOITE

A CUMPLICIDADE

DE PALAVRAS POUPADAS DA ESTERELIDADE ABSOLUTA

NUMA POESIA DEMASIADO ESCASSA PARA COMPENSAR PERDAS

OU RENOVAR ASAS PARTIDAS DE ESPERANÇAS

NO VÃO ESFORÇO

DE MULTIPLICAR A ANTROPOLOGIA SUBJACENTE

DOS IDIOMAS AS BARREIRAS SUPERADAS.





SERIA O POEMA MAIS PLENO

NA FLEUMA DO PLANO CLARO

DE CONSPIRAR COM O VENTO

O CONTEÚDO ARENOSO DO TEXTO.



TERIA QUE MERGULHAR NO VIVER ESCRUPULOSO

DA DOR HONESTA

PARA ENTENDER DA ESCULTURA RESTAURADA

A FÓRMULA AINDA VÁLIDA.





*


























CALOR VIAJANTE




ESCREVERA A VIDA COMO UMA VIAGEM

PARA CONVIVER COM PAISAGENS AO INVÉ DE SENTIMENTOS.

FORAM VELAS AO VENTO

NO DESLIZAR DAS PÁGINAS SONORAS

DE HISTÓRIAS CUJAS CONCLUSÕES ERAM CINZAS À PARTIDA.



DAS ONDULAÇÕES A CAUSA MAIS PROVÁVEL

DE INVENTAR NAVEGAÇÕES NA SALSUGEM FRESCA

DE DIRECÇÕES REDESCOBERTAS.


FORA SEU COMPASSO A GEOGRAFIA

NO PERCORRER COM ESPANTO

OS ELEMENTOS FUNDIDOS

NO CALOR SEGURO

DO VIAJANTE SUA ALMA.






ERA DESTINO INEVITÁVEL A DISSOLUÇÃO

NA PAISAGEM ABERTA

DETALHADA NAS GRANDES CARTAS

DA GEODESIA HUMANA.


FÚTIL QUALQUER PLANO FORTE

DE CIRCUMNAVEGAR OU EVADIR

A VORAZ ILHA DE FOGO.

FORA DA VIAGEM A SAGEZA

ENCONTRAR MODESTO UM RECANTO

NA EXTENSA TERRA DESABITADA.





*






























QUEDA LIVRE


ABRUPTAMENTE ÍNGREME O TEMPO

DE CAIR NO VAZIO DA NOITE ESTÁTICA,

DE PROJECTAR A VOZ SEM ESPAÇO

ENTRE PAREDES DA RESSONÂNCIA A VIDA.



FACILMENTE COMPREENSÍVEL A CONCLUSÃO

DE SE JOGAR COM A IMPERFEIÇÃO SÓLIDA DE TENTAR SER;

COMPLETAMENTE OBSCURA A PERCEPÇÃO DA FINALIDADE

DE TODO O ESQUEMA.





*






Paisagem Móvel


A respiração plácida dos elementos da paisagem móvel,

nevoeiro alusivo à superfície de espelho de águas contidas

na linguagem corrente dos eucaliptos e oliveiras

no grito sólido do pinheiro manso

encastrado na solidão orgulhosa do monte.



Claros sinais duma naturalidade abundante

que dispensa prestidigitações de ideias e palavras.

As frases esparsas e desnudas dos sobreiros

no contorno impreciso da serra mutante,

horizonte redesenhado no instante

em que a mente preguiçosa se exercita

na busca do nome exacto para a ave rara.



A amnésia amarela apagando o mundo na celeridade

do avançar dos relógios

deixando marcas cabalísticas nas paisagens persistentes

que já quase desconhecem do rosto em translação

a imagem reflectida.


*

AMOR.COM


DESAPARECEU NA MULTIDÃO

O ÚLTIMO PAR DE HABITANTES

QUE NA URBE

ERA CAPAZ DE QUALQUER COMUNICAÇÃO LÁBIO A LÁBIO.



ESQUECERAM O TERRITÓRIO COMUM

DO IDIOMA HERDADO

E FORAM MORAR NAS PRESTAÇÕES DAS HERDADES DE SEUS APARTAMENTOS,

NO CONFORTO DE SALÁRIOS REUNIDOS POR UM AMOR À PRIMEIRA MORDIDA,

EM DIRECÇÕES ELECTRÓNICAS,

NA PERIFERIA DA GLOBALIDADE

E INFIDELIDADES VIA INTERNET.



JÁ HÁ MUITO SÓ SE FALAVA MIMÍCAMENTE

POR ENTRE COPOS ANESTÉSICOS

E PÍLULAS DE COCAÍNA

MEDICINAIS E COMPARTICIPADAS.



IMPERATIVO ELIMINAR-SE

CERTAS PALAVRAS DO HORIZONTE.

NOVÍSSIMO, O DICIONÁRIO PÓS-MODERNO

PROPÕE A ELEGANTE SOLUÇÃO.

ANOS DE PROFUNDAS E INTENSAS PESQUISAS

PARA SE SANCIONAR REALITY SHOWS, BULL-SHIT, SKIN-HEADS

E COM AUTORIDADE LÉXICO-ORTOGRÁFICA-MEDIÁTICA

PROIBIR E COIBIR VOCÁBULOS DESNECESSÁRIOS E PERTURBADORES

DAS PAISAGENS VIRTUAIS DA NOVA ORDEM MUNDIAL.

FORAM EXTINTAS, ABOLIDAS E PROSCRITAS PALAVRAS COMO

SOLIDÃO, INJUSTIÇA, HONESTIDADE E TRISTEZA.

E DESGRAÇADO O ELEMENTO QUE CAIR NA IMPOSTURA DE AMAR:

JÁ NÃO HÁ COMO SE DIZER ISTO.



CONVENIENTEMENTE, PLANEARAM-SE SITES

PARA REMEDIAR IRRITANTES INDISPOSIÇÕES DESTA NATUREZA:


HTTP://WWW.PLEASURE-INDUSTRIES.ORG/

HTTP://WWW.IGREJAS-PATROCINADAS/CADAUMPORSI/DEUSCONTRATODOS.HTML


HTTP://WWW.MADAMEPLIM.ORG/


HTTP://WWW.MINISTERIO-DOS-SEPULTAMENTOS.GOV/


HTTP://WWW.AMOR.COM/


*





Inflação do Vento



Soprou um vento estranho

veio forte dumas páginas do Ruy Belo

e bateu-me directamente no espírito.



Fiquei prostrado vários dias

ancorado à minha sinusite primaveril

ensombrado por uma melancolia crepuscular.



As coisas já não estavam muito boas

quando o vento só custava 80 escudos

imagine com o preço que andam agora.






*










Over the Rainbow



O veludo de habitar o sonho sempre almejado

de envelhecer no jardim que fazes crescer

simplesmente sendo.

Tempo que vais abrindo a cada nota

com a música forte de seres tu a tocar.


A viagem nos acordes

de construir esperanças frescas

e puras à medida de todas as crianças.


O sol com que dedilhas

as cordas dos meus sentimentos

salvando-me do naufrágio

no sonambulismo de viver imerso em banalidades;

as águas delicadas do teu violino

a reinventar melhor

sempre à imagem da harmonia de cada compasso.


Sei-te minha verdadeira pátria

pela qual morreria todas minhas vidas

e viveria muitas outras.



És a música de crianças mundo fora

para que este seja sempre novo

para além do arco-íris.





*
































À PROCURA DO POEMA PERDIDO


SENTADO NO AEROPORTO DO TEMPO

À ESPERA DO PRÓXIMO AVIÃO PARA

OS TERRITÓRIOS AZUIS DE ESPERANÇAS

QUE SÃO CONSTANTES COMO A SOMBRA.


CONSTRUO UM PAR DE ÓCULOS

COM FARRAPOS DE NUVENS

PARA EMPRESTAR SABORES EXÓTICOS ÀS DIRECÇÕES DO VOO.


NO BOJO DO GRANDE PÁSSARO

CONSTROEM AS PALAVRAS A

ARTE MECÂNICA DE LEVITAR

E TER O CORAÇÃO NA CURVA DO HORIZONTE.


COMEÇAVA ASSIM O CURIOSAMENTE PROMISSOR POEMA PERDIDO.

PREPARAVA-ME O ESPÍRITO

PARA REENCONTRAR ALGUM PASSADO QUE AINDA RESSOA.


EM TERRA, A LUMINOSA PARIS

HESITA EM ABRAÇAR O VERÃO.

ENCONTRO SUAS PEDRAS INTACTAS

EM OPOSIÇÃO ÀS QUE ME SUSTENTAM O CORPO.

NADO CONTRA AS CORRENTES DO TEMPO

PARA NAS MARGENS DESCOBRIR

QUE ESTÃO MEUS AMIGOS

SÁBIAMENTE RESIGNADOS À INDIZÍVEL INEVITABILIDADE;

COMEDIDAMENTE

RELEMBRAMOS CONVICÇÕES JÁ HÁ MUITO DESBOTADAS.


NA CONFUSÃO DE MISTURAR CORES APAGADAS

E ALINHAR NOVAS EQUAÇÕES

PERCO O POEMA RABISCADO LOGO À PARTIDA

NUM APARENTEMENTE PROVIDENCIAL GUARDANAPO.


VASCULHO TODOS OS BOLSOS

AS CIRCUNVOLUÇÕES DO CÉREBRO

À PROCURA DO MÍSERO PAPEL.

SEM QUALQUER SOLUÇÃO

DEAMBULO ALGUMAS HORAS PELAS IMEDIAÇÕES DA SORBONNE

À ESPERA DALGUMA INSPIRAÇÃO DE ÚLTIMO MINUTO.

NADA ACONTECE. RESTA-ME APENAS

ALMEJAR POR MELHOR SORTE COM AS MINHAS EQUAÇÕES.


PS. PENSO QUE SÓ A TEATRAL EVENTUALIDADE DE ACABAR POR ENCONTRAR O TAL GUARDANAPO, SALVARIA O PERDIDO ÁTOMO DE POESIA (E POUPARIA O LEITOR DA LEITURA DESTE HETEROGÉNEO POEMA). INFELIZMENTE TAL NUNCA OCORREU. RESTA-ME EVITAR OS GUARDANAPOS COMO SUPORTE DE FUTURAS LINHAS.
*

S. POST MORTEM


NÃO HÁ COMO DESENHAR O FUTURO NA TELA CLARA DO CÉU ESTIVAL

ENQUANTO AINDA ME ARDE NOS OLHOS O PASSADO.

INCERTO ENTRE SER HABITANTE HESITANTE DE CAMINHOS CIRCULARES E

NAVEGANTE ONÍRICO NO RIO DO PRESENTE

DESCUBRO QUE PARTISTE

SEM DEIXAR ESCAPAR QUALQUER MURMÚRIO DE DOR.


QUE ENLUVADA MÃO INJUSTA SE LEMBROU DE TE SUBTRAIR DOS TEUS

DEIXANDO-ME ORFÃO DA VISÃO DOS TEUS LONGOS CABELOS.

CERTAMENTE A MESMA QUE, POR MEIO DE TERCEIROS, ACABOU

POR ME FAZER CHEGAR A TRISTE NOTÍCIA.


AS PONTAS DOS MEUS DEDOS JAMAIS TOCARAM A SEDA DA TUA PELE

MAS A HARMONIA DA TUA VOZ VIVE AINDA NA MEMÓRIA.

FICÁMOS PARA SEMPRE CIRCUNSCRITOS À TROCA DE OLHARES

E A UMA ATRAPALHADA CHAMADA TELEFÓNICA.


FOSTE UM RISCO NA ALMA.

BELO E CALMO.

DESLIZAREI MINHA PENA, ATÉ AO MEU PRÓPRIO FIM,

NO SULCO PROFUNDO DEIXADO PELA TUA ETÉREA FIGURA.

*
Vocalizações


Vibram naturais cordas que vocais

são o instrumento ressonante

de conquistar pianamente

o consolo da espécie.



Palradas as palavras

cúmplices na inconsciência

de articular-se na espiral

de estarmos no centro.


Ímpar o paradoxo

de estar na solução da equação de onda

o código comum

que nos faz colectivos.



Jangadas as palavras que no sopro da voz

cortam lagos de tinta

na busca de margens duvidosas.

Mais seca a terra que poesia

é a análise espectral da vida.

Aluvial a poesia oculta nas entranhas do mundo

em mecanismos que dispensam palavras

ou as exigem mais modernas.


Automático

o discurso de encontrar o compromisso

entre a utopia e o devir iluminista

dos males o conserto.


O concerto de lamentos

dum uníssono de mortes desprovidas de sentido

no absolutismo de palavras convertidas em enigmas belicosos

exigentes do requiem de avivar memórias.



Declaram as palavras

guerra ao sofrimento anónimo

e cantam estocadas ao âmago

de causas sempre

as mais perdidas.




Secam os sons na derrota total de cada passo

avarias do relógio duma escrita

que são poros de declarações

inevitávelmente estéreis.


Caminhos mórficos no sussuro

de sílabas que são

fórceps de nascer palavras novas

na frescura do verão desfocado.

Maquetas de largas avenidas

num futuro de jardins que são cidades

e espelhos de almejar

o sol de crianças a correr

e paixões com pigmentos do beijo eterno.




*





















Oposições


Na busca duma impermeabilidade singular

no oceano da pluralidade de sermos a cada

instante mais numerosos.



Recitar exercícios de disfarçar com a maquilagem de ambiguidades

faces marcadas pela solidão que caminha livremente pelas estradas.



No interior do círculo de dunas

que circunda cada casa

surpreender-se com a expansão acelerada do Universo

enquanto se representam no teatro dos espelhos

vidas interiores que se contraem desesperadamente.






*











PRELÚDIO DE OUTONO



NÃO ERA O AMOR QUALQUER PAZ

ATÉ SENTIR-TE NO CALOR DO SANGUE QUE FLUE

PELOS MEANDROS DA NOITE QUE SE INICIA.



NÃO TINHA O AMOR QUALQUER SUBSTÂNCIA

ANTES DE ESPALHAR-SE NEVE

SOBRE OS CAMPOS EXAURIDOS DO SONHO

E SEMEAR A CLARIDADE MATINAL

NA PENUMBRA DO MEDO.




NÃO ERA O AMOR QUALQUER VERDADE

CIRCUNSCRITO AO EXÍGUO

HORIZONTE DA RAÇA, PÁTRIA, COR OU CLASSE.


NÃO QUERIA O AMOR

MISTÉRIO REVELADO

NAS ESQUINAS DO PASSADO

E SEM HIPÓTESES DE BATER ASAS A QUALQUER INSTANTE.




NÃO SE EXIGE QUALQUER AMOR

NA QUOTIDIANA COMPARÊNCIA

DO CONTRATO MEDICINAL DE PRAZERES EM GOTAS.



ERA O AMOR TACTO

DE PELES QUE REVESTEM

O ÂMAGO DO BEIJO SEMPRE CASTO

REFEITO PELO DESABROCHAR DO DESEJO.


HAVIA MAIS PURO O AMOR

AO SURPREENDER A FELICIDADE SEMI-NUA

RECOSTADA NO DIVÃ DA TARDE

AINDA FRESCA DAS TINTAS DO ARREBATAMENTO.



ERA O AMOR SERMOS MAIS FORTEMENTE

REJEITANDO AS TEIAS DA DESLEALDADE

DEIXANDO-NOS ESTAR NO DESNORTE CALMO

DO LABIRINTO TRANSPARENTE.



AMOR ERA O ÚLTIMO FÔLEGO DA ARAGEM

NO VERÃO QUE SE ENCERRA.





*
Felicidade amarela

Extingue-se a força fogo

para cair-se no calabouço

que se carrega às costas.


Estalam os ossos

acomodados ao conforto

duma infelicidade indefinida

que não se molha à chuva

que não se seca ao Sol.

Parecem quase todos

frequentar terapias para a incapacidade de ser

e por entre quiméricos diálogos

declaram-se perplexos

com a ausência de nexo do sistema.


Sempre sorriem ao evocar

dos chefetes as bizarras doutrinas

no flartar cúmplice de idolatrias patéticas.

Pretendem-se melhores

que os amadurecidos no desencanto

duma anacrónica honestidade.

São certamente mais felizes.
*



Água



Transparentes as águas

que correm fontes de adiar sedes hodiernas.



Turbulentas as águas

carregadas pela gravidade

de miragens encalhadas

no limbo do tempo.



Águas transformadas em névoas

de branquear memórias

e pintar de mistério o desgaste

de equivocadas esperanças.


Salgadas águas no silêncio do útero,

na vertigem de mar aberto

na busca de ilhas perdidas.


Branca água

no fascínio duro do diamante

o gelo,

montanhas doces do planeta-casa os confins.

Tríptico metastável

de escolher destinos

na termodinâmica de vidas

que vibram na teimosia muda de fugir

da inevitável a entropia.


Navegar no instante

ao longo do rumo incerto

cabotagem de cardinalidades incertas

pelas costas de ilusões

e reconhecíveis ondulações no rebentar das ondas.



Subtis murmúrios da chuva estival

interrompendo quase o monólogo constante

duma solidão que se expande

pelas escarpas da loucura.



Perenes moinhos,

defesas varridas

pelas força voraz de águas

que mais céleres destroem castelos de vida

nas certezas de areia.


Águas que na ribeira

são calmas de alisar

linhas turvas

e iluminar sentidos.



Lágrima, saliva e sangue

águas fluxos familiares

de histórias que cessam

escrevendo na superfície

imagens partidas

de poemas inacabados.






*

















FOGO



FUGAZ LUME

AS PALAVRAS AFIRMATIVAS

NAS BALADAS

QUE RECITAM O FUTURO.


PURA A CHAMA

QUE PURIFICA

AS CINZAS DO PASSADO

E ESTILIZA ANCESTRALIDADES

DISPERSAS.


FRÁGIL A CIVILIZAÇÃO A QUEIMAR-SE

NA LENTA AGONIA DO FOGO

DE ÓDIOS E AMBIÇÕES.

SEMPRE SOMOS A VOLATIVIDADE

COMBUSTÍVEL DUM DESESPERO

QUE ENFURECIDO PODE

BUSCAR FOGOS OUTROS MAIS TOTAIS.



*



Ar



Primordial o espaço que aberto

fez-se letra-e-cifra, Aleph,


e na leveza dum sopro transmutou a sombra morte-e-mentira - MET

Hêth Mêm

no brilho de ser/estar verdade-e-vida - EMET

Hêth Mêm Aleph.



Cálido o ar que divino animou a matéria bruta

Milhares de milhões de anos na sopa das leis da física

Fósseis que da origem cristalizaram proto-poemas

Ventos

ar-sopros para a vida letras.



*














Terra



Maior o engenho

de calcular a construção de mundos

e te-los sólidos sob os pés.

Escondem grandes milagres os mais ínfimos tufos da deusa Gaia.



Abrigo azul da vida a casa,

Maternidade suprema,

Prancha para mergulho no Universo.






*
















Napapiiri


No interior do círculo mais ao norte,

varrendo a tundra

cortando a taiga de abetos e bétulas

distorcendo o céu desenhado na superfície de milhares de lagos:

o vento dum tempo ártico.



O silêncio loiro

duma civilização agressiva na contabildade de cifras

apagando as lúgubres chamas da música

de alhos treinados na subtil classificação das neves.



Não foi a solidão

que emudeceu a dura arte

da caça e da pesca

nem as agulhas dum frio que na alma

se mudou para aldeias de betão.

Foi a mesma tristeza que nos abate

quando entendemos que se perdeu a multiplicidade do branco.



*



ATAQUE


DESVIADOS IRREMISSÍVELMENTE

DO VÍCIO SOLIPSISTA DE HABITAR

PARAÍSOS FÁCEIS

CONSTRUÍDOS A PARTIR DE FICÇÕES E

PAISAGENS VIRTUAIS.



UMA VIOLÊNCIA QUASE ORDINÁRIA

GANHOU ASAS

E ACABOU POR CORROMPER O CÉU.

TORRES DE ASSALTAR O RECANTO DOS DEUSES

SUCUMBIRAM À MULTIPLICIDADE DISCONEXA DOS IDIOMAS.

NO RUBRO DOS ÓDIOS FOI INCINERADO O PÓS-MODERNISMO.





*












NOORDWIJK



ARRASTAVAM-SE NA GARGANTA AS PALAVRAS

DUM MAR CINZENTO E QUASE SÓLIDO

NO SOPRO DE ESQUECIMENTOS FORÇADOS.



DIFUSAMENTE CONSTRUIDA A PRESENÇA

CAPTURADA PELA FUGAZ

IMAGEM ULTRA-SÓNICA.


PERDEU-SE MAIS UM MUNDO

QUANDO O LABIRINTO DAS HIPÓTESES

ESCOLHEU O PONTO NEUTRO DO DESTINO.

CORTOU-O CERTAMENTE O VENTO

QUE DEIXOU OS PASSEIOS COBERTOS PELAS AREIAS.



*












CLEPSYDRA



A PUREZA DA GOTA FLUINDO DESDE O MANANCIAL SECRETO,

A SÍNTESE E FORÇA DAS PALAVRAS LIMITADAS PELA QUEDA DA DERRADEIRA GOTA,

UMA PARA CADA AGORA

PARA CADA ETERNIDADE,

UM VÓRTICE NO RIO DOS FRAGMENTOS

CAPTURADOS PELO INFINITO DE CADA INSTANTE.



A SOMBRA SOB O CARVALHO,

A VIAGEM SEMPRE FINAL,

A VIBRAÇÃO HARMÓNICA DO CRISTAL DE QUARTZO

E DA LINHA DO CÉSIO,

FASES DE CADA FACE

DO REINO PERDIDO DA VIDA.



O CALOR DO PULSAR DO CORAÇÃO DE CADA ESTÁGIO

INOCULANDO NOS MEANDROS DO TEMPO

OS GRÃOS DA VERDADE ÚLTIMA

A COMPLETAR O CICLO.


UMA GOTA ANTES A EQUAÇÃO PERFEITA

UNIFICANDO A VIDA E A SUCESSÃO INDISTINTA DE GOTAS.



NUMA ANTECEDENTE UMA PAIXÃO ENEBRIANTE,

A FRATERNIDADE PLATÓNICA,

A SUCESSÃO E A SEMENTE QUE A MATERIALIZA NO MUNDO.



NÃO HÁ SEDE DE VERDADE

QUE NÃO FIQUE SACIADA

PELA INVENÇÃO ARISTOTÉLICA

DE SE MEDIR O TEMPO,

E NO GOTEJAR GRAVE O SILOGISMO FICARÁ MAIS QUE CONCLUSO.

AS BORBOLETAS MONARCH ATRAVESSARÃO CONTINENTES E MARES

NA SUA JORNADA FINAL,

AS ENGUIAS SEGUIRÃO O CANTO ATÁVICO

E RUMARÃO ATRAVÉS DA POESIA DESCONHECIDA DOS OCEANOS

PARA SE PERPETUAR E PERECER,

AS SUPERNOVAS EXPLODIRÃO E LANÇARÃO SUAS CINZAS

PARA FERTILIZAR A NOSSA CASA LÁCTEA,

OUTRAS MAIS LONGÍNQUAS

REVELARÃO A QUINTA ESSÊNCIA DO MAIS ENIGMÁTICO VAZIO,

BALIZANDO A EXPANSÃO DO ESPAÇO PARA ALÉM DOS CONFINS DA IMAGINAÇÃO.



IMERSOS NA ESFERA DA NOITE PERFEITA,

A MÚSICA SIBILINA DOS ASTROS

FAZENDO-NOS COMPREEENDER A SUMPTUOSIDADE DE SERMOS FILHOS DO COSMOS,

DE TERMOS NO SER PARTÍCULAS DO INÍCIO DOS TEMPOS,

CÉLULAS DOS PRIMÓRDIOS DA VIDA,

DE EVOLUIRMOS, COMO TUDO, SEGUNDO A LEI UNIVERSAL DA DISSOLUÇÃO.



NO LIMITE DO CONHECIMENTO,

NA SUPERFÍCIE DA PELÍCULA ESCURA,

DEIXAREMOS A MARCA DA NOSSA ESPÉCIE

E EXIGIREMOS UMA DIGNIDADE MÍNIMA

PARA SE VIVER NO MUNDO:

CANTAR INCANSÁVELMENTE A RAPSÓDIA DA VIDA

E A MORTE COMO UM DESTINO CALMO,

ESTENDER, PELO MENOS UMA VEZ, A MÃO PARA ALIVIAR A ANGÚSTIA DO PRÓXIMO,

COMBATER APAIXONADAMENTE PELA JUSTIÇA,

AMAR ATÉ AS RAIAS DA LOUCURA, SEMPRE,

DA ALVORADA

AO CREPÚSCULO DA EXISTÊNCIA.








GOTA APÓS GOTA,

PARA NO EXÓRDIO

TER-SE CIÊNCIA DE QUE O TEMPO NÃO É CIRCULAR,

QUE NÃO HÁ UMA SEGUNDA HIPÓTESE

PARA CADA INSTANTE;

QUE O AMOR NÃO SE MEDE PELO ACUMULAR DAS GOTAS

MAS PELA COR DE CADA GOTA,

QUE A VIDA É A GOTA E TODAS AS GOTAS.


NA PRAIA DO TEMPO,

HÁ NA MÚSICA DE CADA ONDA

UMA CALMA INQUIETA

E AS PALAVRAS LEVITAM

NOS CASTELOS DE AREIA DO INEXPRIMÍVEL.


O RELÓGIO DO SR. PESSANHA

NÃO ERA PERFEITO,

O MEU NUNCA SERIA MENOS CREPUSCULAR.

DEIXAREI, QUANDO DO IMPRETERÍVEL ACENO,

ALGUNS DE MEUS ÁTOMOS ESPALHADOS PELO MUNDO:

NOS OLHOS VERDES DE MINHA FILHA UM FRAGMENTO AZUL DE MINHAS MEMÓRIAS,

UMAS POUCAS EQUAÇÕES INCOMPLETAS,

ELEGANTES ATÉ O LIMITE DE MINHAS FORÇAS,

UM POEMA INACABADO.



MAS A LUTA SEMPRE PROSSEGUE ATÉ QUE A GRAVIDADE ARRASTE A GOTA FINAL,

E NAS UNHAS HÁ A TERRA FECUNDA,

A CONTINUIDADE DA ERVA FRESCA,

OS ACORDES DA BALADA ANARQUISTA

O ADAGIETTO DUM MUNDO MELHOR

AINDA QUE NÃO HAJA RESPOSTA SATISFATÓRIA PARA A PERGUNTA,

O QUE SOU ?

NÃO SOU SÓ! SOMOS TODOS !


ENTELÉQUIA,

LINHAS DUM DESENHO CÓSMICO SEM OUTRO PROPÓSITO

QUE NOS FASCINAR COM A BELEZA MÁGICA DE SIMPLESMENTE SER,

HERDEIROS VIRTUAIS DUM PROJECTO QUE CRIOU

PÉTALAS, JARDINS, VENTO, AREIA, NEVE, NÉCTARES E GALÁXIAS.


SOMOS OS LEITORES DO TEXTO INFINITO,

DA FÓRMULA QUE NÃO SE FECHA.

MAS NÃO HÁ QUALQUER DESESPERO,

POIS NA N-ÉSIMA GOTA PERCEBEMOS

QUE O INFINITO PODE TAMBÉM ESTAR CONTIDO

NA PRIMEIRA LETRA DO ALFABETO HEBRÁICO, ALEPH,

ASSIM COMO TODA A HISTÓRIA HUMANA

NO SORRISO DUMA CRIANÇA.

QUE MAIS SE PODE DIZER ?

QUE AS GOTAS SUCEDEM-SE INEXORÁVELMENTE

E QUE A JUSTEZA DA DESCOBERTA

INDUZ APENAS UMA SOLIDÃO CALMA ?



O SOL NÃO SÓ SE PÕE TODOS OS DIAS,

MORRE LENTAMENTE

MAS APESAR DO QUOTIDIANO DESASTRE

SABEMOS QUE NO CREPÚSCULO

TODA PAIXÃO

TEM A PRIMAVERA NOS CABELOS

E QUE O ENTRELAÇAR DE BRAÇOS

É PERENE

COMO O ARDOR DO BEIJO

E A HUMIDADE DO SEXO.


O JÁ APRECIÁVEL CAUDAL DO MEU TEMPO,

AS FISSURAS NA FACE,

E AINDA TANTAS PEÇAS DE VERDADE POR SE ENTENDER,

MONTANHAS POR SE REMOVER,

E O SANGUE SEMPRE A FERVER

NA PROCURA INCESSANTE DAS RESPOSTAS.



ESTAVA, ESTOU, ESTAREI CONDICIONALMENTE.

ERA FORTEMENTE, SOU DEBILMENTE, CESSAREI.

CONSCIENTEMENTE, SOMOS MUITO FUGAZES NESTE MUNDO,

SÓ NOS RESTA SERMOS PLENAMENTE.

ESTE É O AXIOMA MAIS EVIDENTE DO MEU PRECÁRIO DISCURSO,

A ESSÊNCIA DA MAIS VORAZ LIBERDADE,

DO MAIS ABRANGENTE SONHO.






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