Amor.com
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ORFEU B.
MARÇO 2004
DEDICADO À MENINA MARINA, AUTORA DO POEMA
A NOITE
A NOITE ESTÁ FRIA ALONGADA.
ESTRELAS A BRILHAR COM AS SUAS FORMAS
E EU PENSANDO: SERÁ QUE LÁ AO LONGE
A LUA SENTE VIVE VÊ PROCURA.
A LUZ DO DIA DÁ ALEGRIA
SERÁ QUE TAMBÉM VIVE VÊ PROCURA
CLARO QUE NÃO
MAS NA NOSSA IMAGINAÇÃO HÁ TUDO
E TAMBÉM DEVE TER A LUA E O SOL
A VOAREM A SENTIREM A PROCURAREM E VEREM.
15 ABRIL 2001.
Tinha deixado a torpe arte dos versos
A Gastão Cruz
A mão incontinente no alinhar precário palavras
anos mudos esquecidos
sob o Sol morno da Lisboa idioma a casa.
Não seriam os versos que salvariam
noites ruidosas
nem dos tercetos a arte
por mim nunca encontrada.
Conheço mais torpe meu outro ofício
seus-meus erros
foi do Tejo o paralisante memento carregado pelo vento.
Poderia a prenda recusar da noite a breve estrofe
menos so não ficaria a alma fria se
na penumbra fossem os grãos dispersos.
Tinha planeado deixar a torpe arte da vida
mas escrevi mais um erro incompetente o verso.
*
Jardim de gestos
A intempérie polindo a
caverna profunda
dum inverno na alma;
nas águas dum Março obscuro
sob a pele enrugada
o pulso a cada palavra mais débil.
Na concavidade da ígnea rocha
a geologia duma esperança fóssil
que é ferida aberta pela lava da lembrança.
O hálito quente duma solidão de seda
em ilhas num idioma bíblico e ancestral;
mar contra sal corpo
espuma duma fadiga milenar
ao concluir-se que é neste desnorte que se há de viver.
A precariedade de qualquer solução
ilusão de estar a um estender de braço do salto
no coração do turbilhão que é só passado
e nunca se realiza.
Uma estátua para cada frustração
e um jardim de gestos singelos
sob as gotas pesadas duma chuva
que nunca pára.
*
Pessach
Avós raízes mais fortes da reminiscência hebráica
o Pessach.
Evadimos donde escravos éramos
para compreendermos
do deserto o fogo
do pão ázimo as dez leis.
Do tempo prático escravos ainda somos
deste Egipto outro nome.
Não pretendia elaborar linhas estéreis
para a fuga que sonhava fértil.
Algum ouvido invento
para comigo também deplorar
a demolição das casas
e dos pobres o massacre.
É mais amarga a injustiça no Pessach
quero-a na companhia
dalguma indignação.
Um sofrer na concha
do orgulho silencioso
destilando do desespero
para a luta a seiva.
O grito contido nas imagens de cada oração
sentido recíproco
que se constroe no ombro a ombro
da marcha.
É no dividir do pão ázimo
que se entende do Pessach a nova.
Já não somos como éramos depois
do vinho e o sabor das raízes fortes.
*
Shabat Poema
A utopia na cruel semana espessa
é o shabat que nunca foi.
No descanso semanal das equações semi-vivas
o sonho de palavras marcadas com o dedo de deus
rasto através do enigma desvendado
ainda que ausente a mais mágica das letras.
Por entre as brumas dum diálogo tosco qualquer
linhas candidatas
assumem seus postos
nas trincheiras que defendem o poema.
No ápice do combate
a morte inevitável da poesia
que jaz no campo de batalha dum pedaço de papel.
Durante a contagem das palavras sobreviventes
um breve epitáfio é escrito
enquanto as primeiras equações
acordam com a aurora da semana que se inicia.
*
Contágio inflamatório
A dúvida cinge o exagero
perturba da fala o gume
inteligentemente desencaminha o discurso inútil.
A dúvida da descoberta a mola
subtil ginástica de lógica
transformando o mistério apolíneo
na obviedade obesa
que cristalizada repete já outra inquietude.
A dúvida nunca se resume no espelho perfeito
imagem a morrer raquítica
na certeza dócil
da ignorância máxima.
A dúvida com suas muitas patas
a subir e descer pelo corpo
num contágio inflamatório
exigente da resposta grave, precisa,
inadiável
que aceita a forma espaço compacta
do poema ou equação.
Não há na solidão da solução
erro ou certeza
é duvidoso o exercício de capturar
do resultado a solidez
que inquieto já é outra pergunta.
*
Circuito Integrado
Falam-me dum verbo electrónico
integrado
na ágil invasão das mentes porosas
no circuito das poltronas
consonantes com o conforto
de soluços fabricados já sem dor.
Ensinam-me como descodificar
dos electrões a palavra
no grande engano
das noites hipnóticas.
As paredes já não dividem
este uníssono de ecrãs
a somar no uniforme pensar colectivo
da democracia o simulacro.
Contam-me que o éter veta qualquer mentira
são do nosso tempo estas imagens
que os olhos escolhem da frequência a verdade.
Virtuais sempre são as paisagens
que nos sonhos habitamos
não há como defender a musa do verso pobre
desnuda da disciplina publicitária.
Os tubos de electrões dentífricos
estão autorizados a simplificar o resto
e já não se desliga versão electrónica do poema o futuro.
*
Copiar o Tejo
Aprendemos com o rio
o sistema de suportar os outros elementos;
não nos roubam o caudal
de sermos mais calmos
que o tempo das águas
e o possível de cada margem.
Não é o fluxo de passarmos
que nos arrasta para as margens impróprias
correntes são de sermos contra
a luz reflectida
de cada essência o tempo certo.
É determinista a condição caótica
de estarmos fundeados no que somos
não há como se evitar o mar
no âmago do relógio é o vento o escultor de todos os gestos.
*
25
Não seria neste Abril
que faríamos, àforça dos cravos,
o Sol para todos mais brilhante.
Dizem-me que não há sequer a mesma urgência, não creio.
Adiamos o mudar mais forte para uma primavera que menos fluida
não esteja interrompida.
Enquanto ganho forças, minha filha fica sendo a minha revolução.
*
Madredeus
Guitarras orgulhosas
criaram da voz sua pureza
num sonhar certo o canto perfeito
do mundo reinventado.
*
Revolução, nós que te amávamos tanto !
A Lula, Salvador Allende, Cohn Bendit, Geraldo Vandré e tantos outros
Surpreender-se com a profundidade dum amor submerso
ao despertar com o coração carregado por baladas de mobilização.
Nós que sonhávamos com alamedas de homens melhores e sociedades mais justas,
que pensávamos que o futuro seria nosso
tinhámos apenas lágrimas como companheiras.
Descobrimos que os actos não redimem as manhãs silenciosas.
Habitar no labirinto longínquo,
tão longe de ti
�revolução
que nós amávamos tanto ...
Nós que desejávamos o plural das coisas
não sabemos voltar aos livros que te inventaram
ou às lembranças que nos agitavam o sangue;
as palavras de ordem perderam-se ao longo do
caminho
e os heróis parecem estar todos no passado.
Quando aprendemos a viver na solidão dum
futuro de tristes meandros
os sonhos parecem ser anacronismos platónicos;
mas há manhãs que despontam timidamente
e executam adágios que
emprestam sentido à esperança.
A miragem da revolução renasce na rapsódia
de todos os dias.
Nas dobras do coração que insiste em cantar a vida
mesmo no seio escuro do desespero.
*
CORAÇÃO DE ESTUDANTE
JUNTO DO AMANHECER INCERTO
DA RETARDATARIA ESTRELA O BRILHO
ÁGUAS FUGAZES DUM LAZULITE PÁLIDO
TERRITÓRIO VAGO
DO PASSADO MAIS SÓLIDO
QUE O ESTAR NAS VEIAS DO REAGIR APENAS.
QUERÍAMOS A REGIÃO GRÁVIDA DA NECESSIDADE
DE MUDAR TUDO
CONQUISTAR AS MURALHAS DO CREPÚSCULO E
RETARDA-LOS TODOS.
ERA SEMPRE O CORAÇÃO TRANSBORDANTE
RASGANDO IRREVERENTEMENTE TÉDIO E MEDO DOS DICIONÁRIOS,
TEMPO DE ESCULPIR O CORPO DA AMANTE
NO MÁRMORE MAIS RARO DO INSTANTE.
ERA BANHAR-SE SÓ
NO OCEANO DO TUDO POSSÍVEL
DOS INFINITOS AO DOBRAR DA ESQUINA
DO MUNDO PERFEITO
CONSTRUIDO COM CUBOS DE GELO DE PAIXÃO
NUMA IDOLATRIA SOL DE
DERRETER QUALQUER DÚVIDA.
*
A Jusante
DA VIDA A CONTRACAPA
COM ESCASSAS INSTRUÇÕES PARA ULTRAPASSAR A ESQUINA DA INJUSTIÇA.
O BEIJO DA PRESENÇA INVENTADA
AMOR SEMPRE SONHADO.
IMAGEM PROCURADA
E RETIDA NA SALIÊNCIA DO PENSAMENTO
DE REAGIR
E SUBSTITUIR À FORÇA
A SENSATEZ DA ESPERA.
HÁ QUE SE DOAR SANGUE ÀS CAUSAS
QUE FAZEM AS FONTES LATEJAR
E RECUSAR A INÉRCIA VÍTREA
DE SE ESTAR À ESPERA DAS BADALADAS DA HORA.
NO CENTRO DUM SENTIR PRECÁRIO
REMANESCENCIAS DE AFIRMAÇÕES INCAUTAS
SESTROS DECORRENTES.
NAS ESCARPAS DUM AGORA INSÍPIDO
TER A MONTANTE
A CERTEZA QUE NADA PODERIA TER DADO CERTO.
OLHOS IMPACIENTES
JÁ MIRAM A JUSANTE
A FOZ IMPRONUNCIÁVEL.
*
Aceno eu mudo
O aceno mudo
quando partem os comboios
deixando o momento partido.
Vão para as cores mais lisas do paraíso
concêntrico ao sentimento puro
ou para um desterro Auschwitz
no seio da mórbida maquinaria da certeza.
Nunca o saberei,
refém onírico que estou da limpidez do Sol poente.
Que frio mistério claro agora
poderia apagar da memória
o calor dos comboios a partida ?
Não seria o futuro perto
ou o aceno eu surdo.
Nem o poema tenso
trespassado de sentidos clorídricos.
Talvez o poderiam olhos sem luz
que entendem das trevas as nuances
mais capazes de encontrar da vida um arrepio.
Comboios nunca voltam
vamos nós ao seu encontro.
*
PEDRAS SEMI-PRECIOSAS
DISPERSORA A MEMÓRIA
NUM RETER VARIÁVEL
NO ARQUIVO GELATINOSO
DA LEMBRANÇA A CHAVE.
NÃO SÃO OS DIAMANTES
QUE ME DEIXAM
NEM A PARTÍCULA DE SONHO QUE ME GUIA AO LONGO DO DIA CINZENTO
SÃO SEMI-PRECIOSAS AS PEDRAS QUE ME FOGEM
ÍNFIMAS FRACÇÕES:
A IMAGEM DA AREIA ARRASTADA PELO VENTO
A LUZ DECOMPOSTA PELA ESPUMA DA ONDA PREGUIÇOSA
O BEIJO ADOLESCENTE SOB A LUA QUE SE APAGA.
FRAGMENTOS QUE DEVERIAM FICAR
POLARES NA ESTRELA DA VIDA
DUPLAMENTE DISSIPADA.
VEM DO PASSADO
O PROPÓSITO PERDIDO
NAS ENTRELINHAS DA REMINISCÊNCIA.
É MAIS LENTA A SEGUNDA VIAGEM
POR ENTRE A PAISAGEM MINERALIZADA
DA FOTOGRAFIA ENVELHECIDA.
SABERIA INDICAR O LUGAR PERFEITO
DA MEMÓRIA DESCOLORIDA
REENCENAR A EMOÇÃO SOBRE A FOLHA D'ÁGUA
DE CICATRIZES QUE SÃO MENOS DORES QUANDO ABERTAS.
É MAIS FRIA A INVASÃO INESPERADA
DAS SOMBRAS DO DRAMA SURREAL
NO TEATRO CORROÍDO INSECTOS.
FINALMENTE NA MEMÓRIA
O AGORA DUMA ESPESSURA COMPACTA
NA CERTEZA ENGENHEIRA
DO PROJECTO PERFEITO
EDIFICADO NAS NUVENS
DA MEMÓRIA REENCONTRADA.
*
METALURGIA
PROCURÁMOS IRREGULARMENTE FORJAR
COM PALAVRAS ESSENCIAIS OS METAIS NECESSÁRIOS;
TINHAM CADA UM SEU TEMPO E FUNDIDOS
ERAM ESTRELAS FLUINDO ATRAVÉS DE POEMAS INCANDESCENTES.
NÃO SERIA O CALOR MOLAR VARIÁVEL DE CADA METAL SUA POESIA
NEM SERIA ESTA PERIÓDICA
COMO O MODO DE GOLPEAR COM CORAGEM
O CALOR EVANESCENTE DAS PALAVRAS.
TENTÁMOS TAMBÉM MOLDAR METAIS COM PALAVRAS NECESSÁRIAS
DO OFÍCIO A ASTÚCIA NO MEDIR DE CADA POEMA A DUREZA
FORTALECENDO-O COM O METAL
CORRECTAMENTE TEMPERADO.
NÃO HÁ ESCASSEZ NA TÉCNICA DE PALAVRIZAÇÃO DOS METAIS
HÁ AMÁLGAMAS DE METAIS E PALAVRAS
NOBRES COMO O MOMENTO DA DESCOBERTA;
JUSTIFICA-SE SUA VALIDADE NA EXACTIDÃO DE CADA IMAGEM NA
CONSTELAÇÃO DOS METAIS POLIDOS DO POEMA.
NO FAZER E REFAZER ARTESÃO
FORJÁMOS DA VIDA UMA POBRE NOBREZA
INCANSAVELMENTE NA ARTE DE METALIZAR POEMAS
E INVENTAR AMÁLGAMAS A CADA DIA MAIS PERFEITAS.
CONSUMIMOS AS MELHORES HORAS A EXPERIMENTAR
COM PALAVRAS ENCONTRADAS CASUALMENTE
E ESPERÁMOS NOITES CLARAS EM VIGÍLIA
PELA MELHORIA DA QUALIDADE DOS METAIS.
*
Fernando Pessoa Revisitado
Deixara na torrente de páginas
da solidão um sangue
nas entrelinhas
do sentir múltiplo
de vidas mais fingidas
que as vividas.
Dias claros ou chuvosos
viagens jamais concretizadas
eram-lhe completamente indiferentes,
cadinho para a poesia
numa prosa de contar
como cada perfil
aceitou resignado seu destino
de simplesmente escrever.
Impossível não supor os
heterónimos
como máquinas perfeitas de traduzir
sentimentos em palavras.
O homem real nunca fora menos que lenda
no mundo platónico
dos que amam a poesia.
*
A ORIENTE
MANEIRISMOS SUBTIS E VELADOS
CIRCUMNVOLVEM A CRUEZA DOS FACTOS
CONSTRUINDO DA MENTE UM ORIENTE
ADEMANES DE MODOS MAIS NOBRES.
ADORMECIDOS NOS INTERESTÍCIOS DO TEMPO
ESTAR QUAL VULCÕES
AMEAÇA EXPLODIR ANSIEDADES
EM CUJAS ORLAS A VIDA ESCULPE UMA GRANDE SOLIDÃO
NA PEDRA.
A ORIENTE,
LABORES EFÉMEROS
EDIFICAM SOBRE A PENUMBRA DO SILÊNCIO,
SEIXO APÓS SEIXO,
CATEDRAIS NA ETERNIDADE.
*
Dilema linguístico
Fora das águas a invasão
interrompendo o estar sobre a branca areia;
ficara o ser menos intenso
ao habitar a dicotomia indelével
de sentir-se íntimo
ainda que não se estivesse.
Estaria quando do agora o foco
no fogo fátuo de reagir às propostas do tempo concreto.
Ser não exige declarações tão peremptórias
vai-se sendo ao longo do caminho
emergindo do rumo uma definição.
*
ESFORÇADOS
DO EXERCÍCIO O ASCETISMO
NO FILTRAR DE ALGUNS CONTEMPORÂNEOS
A MIASMA PRODUZIDA.
SÃO SOMBRIAS AS PAISAGENS
QUE PRETENDEM EDIFICAR
E MENORES OS BALDIOS QUE QUEREM GOVERNAR.
TANTOS ROMPANTES DE PATRIARCAS DE APÊNDICE
QUE SÓ LHES RESTA NOMEAREM-SE A SI MESMOS
DITADORES DAS CABEÇAS DE ALFINETE.
PLANEIAM TÃO AFINCANDAMENTE
MEU AUTO DA FÉ
QUE ME SINTO CINGIDO
A LHES AGRADECER O ENGENHO
E AS LONGAS HORAS DE LABOR INTELECTUAL
QUE ME SÃO DEDICADAS.
*
Poema do Orçamento de Estado
As sombras discutem animadamente a lógica dos cifrões.
O mau tempo dispersa os discursos que hipnotizam mentes propensas ao
contágio. Parece não haver imunidade possível contra a retórica baseada na
ignonímia humana e nas frustaçõe decorrentes. Estes cobradores de fraque
constroem uma ideologia de Babel em cada esquina enquanto frequentam cursos
de formação para vampiros. Imaginam domesticar as criaturas e privatizá-las
para a exploração comercial dos seus serviços.
*
MODELO CÓSMICO PADRÃO
EXACTA
A COMBINAÇÃO DE PALAVRAS
QUE SÃO METEORITOS IMPREGNADOS
DA DESCOBERTA A SÍNTESE.
LÚCIDO O BRILHO DA AURORA AUSTRAL
NOS SÍMBOLOS DA EQUAÇÃO DO INSTANTE
INTUIÇÃO MAGMA PROFUNDA
DO PARADOXO NUCLEAR
NO MAGNETO DA VERDADE.
ASSUME-SE SER A SOLUÇÃO O POEMA
METAMORFOSE
DEVIR DA SIMETRIA BOTÂNICA
EM CONSERVAÇÃO DA LEI O ENIGMA.
SEJA O ACELERADOR DA LINHA PARAÍSO PERFEITA
DA SUBSTÂNCIA PRIMORDIAL A ANÁLISE
DE INVENTAR
DAS INTERACÇÕES
A MAIS ELEGANTE
SOB O MICROSCÓPIO
DO FUNDAMENTO A TEORIA.
SEJA UM TELESCÓPIO O POETA
A DESENHAR NAS GALÁXIAS
A POESIA RAREFEITA
NAS CAMADAS DA MAQUINARIA
DE ESTAR NO CENTRO
DA PAIXÃO CURVILÍNEA DE VIVER NO FLOEMA DO MISTÉRIO.
*
CINZELADURA
NÃO OBTERIA DA ESCULTURA QUALQUER ARTE
CINZELANDO O SILÊNCIO
E O ESPAÇO DEIXADO VAGO
DA ESCOLHA MAIS UM ERRO.
SERIA O TRANSFORMAR INSTÁVEL
DA PRIMAVERA O MUNDO
NA SURPRESA DE CONTACTOS
COM ESTRELAS E IDEIAS DE CRISTAL.
EVOLUE NA PUREZA DA NOITE
A CUMPLICIDADE
DE PALAVRAS POUPADAS DA ESTERELIDADE ABSOLUTA
NUMA POESIA DEMASIADO ESCASSA PARA COMPENSAR PERDAS
OU RENOVAR ASAS PARTIDAS DE ESPERANÇAS
NO VÃO ESFORÇO
DE MULTIPLICAR A ANTROPOLOGIA SUBJACENTE
DOS IDIOMAS AS BARREIRAS SUPERADAS.
SERIA O POEMA MAIS PLENO
NA FLEUMA DO PLANO CLARO
DE CONSPIRAR COM O VENTO
O CONTEÚDO ARENOSO DO TEXTO.
TERIA QUE MERGULHAR NO VIVER ESCRUPULOSO
DA DOR HONESTA
PARA ENTENDER DA ESCULTURA RESTAURADA
A FÓRMULA AINDA VÁLIDA.
*
CALOR VIAJANTE
ESCREVERA A VIDA COMO UMA VIAGEM
PARA CONVIVER COM PAISAGENS AO INVÉ DE SENTIMENTOS.
FORAM VELAS AO VENTO
NO DESLIZAR DAS PÁGINAS SONORAS
DE HISTÓRIAS CUJAS CONCLUSÕES ERAM CINZAS À PARTIDA.
DAS ONDULAÇÕES A CAUSA MAIS PROVÁVEL
DE INVENTAR NAVEGAÇÕES NA SALSUGEM FRESCA
DE DIRECÇÕES REDESCOBERTAS.
FORA SEU COMPASSO A GEOGRAFIA
NO PERCORRER COM ESPANTO
OS ELEMENTOS FUNDIDOS
NO CALOR SEGURO
DO VIAJANTE SUA ALMA.
ERA DESTINO INEVITÁVEL A DISSOLUÇÃO
NA PAISAGEM ABERTA
DETALHADA NAS GRANDES CARTAS
DA GEODESIA HUMANA.
FÚTIL QUALQUER PLANO FORTE
DE CIRCUMNAVEGAR OU EVADIR
A VORAZ ILHA DE FOGO.
FORA DA VIAGEM A SAGEZA
ENCONTRAR MODESTO UM RECANTO
NA EXTENSA TERRA DESABITADA.
*
QUEDA LIVRE
ABRUPTAMENTE ÍNGREME O TEMPO
DE CAIR NO VAZIO DA NOITE ESTÁTICA,
DE PROJECTAR A VOZ SEM ESPAÇO
ENTRE PAREDES DA RESSONÂNCIA A VIDA.
FACILMENTE COMPREENSÍVEL A CONCLUSÃO
DE SE JOGAR COM A IMPERFEIÇÃO SÓLIDA DE TENTAR SER;
COMPLETAMENTE OBSCURA A PERCEPÇÃO DA FINALIDADE
DE TODO O ESQUEMA.
*
Paisagem Móvel
A respiração plácida dos elementos da paisagem móvel,
nevoeiro alusivo à superfície de espelho de águas contidas
na linguagem corrente dos eucaliptos e oliveiras
no grito sólido do pinheiro manso
encastrado na solidão orgulhosa do monte.
Claros sinais duma naturalidade abundante
que dispensa prestidigitações de ideias e palavras.
As frases esparsas e desnudas dos sobreiros
no contorno impreciso da serra mutante,
horizonte redesenhado no instante
em que a mente preguiçosa se exercita
na busca do nome exacto para a ave rara.
A amnésia amarela apagando o mundo na celeridade
do avançar dos relógios
deixando marcas cabalísticas nas paisagens persistentes
que já quase desconhecem do rosto em translação
a imagem reflectida.
*
AMOR.COM
DESAPARECEU NA MULTIDÃO
O ÚLTIMO PAR DE HABITANTES
QUE NA URBE
ERA CAPAZ DE QUALQUER COMUNICAÇÃO LÁBIO A LÁBIO.
ESQUECERAM O TERRITÓRIO COMUM
DO IDIOMA HERDADO
E FORAM MORAR NAS PRESTAÇÕES DAS HERDADES DE SEUS APARTAMENTOS,
NO CONFORTO DE SALÁRIOS REUNIDOS POR UM AMOR À PRIMEIRA MORDIDA,
EM DIRECÇÕES ELECTRÓNICAS,
NA PERIFERIA DA GLOBALIDADE
E INFIDELIDADES VIA INTERNET.
JÁ HÁ MUITO SÓ SE FALAVA MIMÍCAMENTE
POR ENTRE COPOS ANESTÉSICOS
E PÍLULAS DE COCAÍNA
MEDICINAIS E COMPARTICIPADAS.
IMPERATIVO ELIMINAR-SE
CERTAS PALAVRAS DO HORIZONTE.
NOVÍSSIMO, O DICIONÁRIO PÓS-MODERNO
PROPÕE A ELEGANTE SOLUÇÃO.
ANOS DE PROFUNDAS E INTENSAS PESQUISAS
PARA SE SANCIONAR REALITY SHOWS, BULL-SHIT, SKIN-HEADS
E COM AUTORIDADE LÉXICO-ORTOGRÁFICA-MEDIÁTICA
PROIBIR E COIBIR VOCÁBULOS DESNECESSÁRIOS E PERTURBADORES
DAS PAISAGENS VIRTUAIS DA NOVA ORDEM MUNDIAL.
FORAM EXTINTAS, ABOLIDAS E PROSCRITAS PALAVRAS COMO
SOLIDÃO, INJUSTIÇA, HONESTIDADE E TRISTEZA.
E DESGRAÇADO O ELEMENTO QUE CAIR NA IMPOSTURA DE AMAR:
JÁ NÃO HÁ COMO SE DIZER ISTO.
CONVENIENTEMENTE, PLANEARAM-SE SITES
PARA REMEDIAR IRRITANTES INDISPOSIÇÕES DESTA NATUREZA:
HTTP://WWW.PLEASURE-INDUSTRIES.ORG/
HTTP://WWW.IGREJAS-PATROCINADAS/CADAUMPORSI/DEUSCONTRATODOS.HTML
HTTP://WWW.MADAMEPLIM.ORG/
HTTP://WWW.MINISTERIO-DOS-SEPULTAMENTOS.GOV/
HTTP://WWW.AMOR.COM/
*
Inflação do Vento
Soprou um vento estranho
veio forte dumas páginas do Ruy Belo
e bateu-me directamente no espírito.
Fiquei prostrado vários dias
ancorado à minha sinusite primaveril
ensombrado por uma melancolia crepuscular.
As coisas já não estavam muito boas
quando o vento só custava 80 escudos
imagine com o preço que andam agora.
*
Over the Rainbow
O veludo de habitar o sonho sempre almejado
de envelhecer no jardim que fazes crescer
simplesmente sendo.
Tempo que vais abrindo a cada nota
com a música forte de seres tu a tocar.
A viagem nos acordes
de construir esperanças frescas
e puras à medida de todas as crianças.
O sol com que dedilhas
as cordas dos meus sentimentos
salvando-me do naufrágio
no sonambulismo de viver imerso em banalidades;
as águas delicadas do teu violino
a reinventar melhor
sempre à imagem da harmonia de cada compasso.
Sei-te minha verdadeira pátria
pela qual morreria todas minhas vidas
e viveria muitas outras.
És a música de crianças mundo fora
para que este seja sempre novo
para além do arco-íris.
*
À PROCURA DO POEMA PERDIDO
SENTADO NO AEROPORTO DO TEMPO
À ESPERA DO PRÓXIMO AVIÃO PARA
OS TERRITÓRIOS AZUIS DE ESPERANÇAS
QUE SÃO CONSTANTES COMO A SOMBRA.
CONSTRUO UM PAR DE ÓCULOS
COM FARRAPOS DE NUVENS
PARA EMPRESTAR SABORES EXÓTICOS ÀS DIRECÇÕES DO VOO.
NO BOJO DO GRANDE PÁSSARO
CONSTROEM AS PALAVRAS A
ARTE MECÂNICA DE LEVITAR
E TER O CORAÇÃO NA CURVA DO HORIZONTE.
COMEÇAVA ASSIM O CURIOSAMENTE PROMISSOR POEMA PERDIDO.
PREPARAVA-ME O ESPÍRITO
PARA REENCONTRAR ALGUM PASSADO QUE AINDA RESSOA.
EM TERRA, A LUMINOSA PARIS
HESITA EM ABRAÇAR O VERÃO.
ENCONTRO SUAS PEDRAS INTACTAS
EM OPOSIÇÃO ÀS QUE ME SUSTENTAM O CORPO.
NADO CONTRA AS CORRENTES DO TEMPO
PARA NAS MARGENS DESCOBRIR
QUE ESTÃO MEUS AMIGOS
SÁBIAMENTE RESIGNADOS À INDIZÍVEL INEVITABILIDADE;
COMEDIDAMENTE
RELEMBRAMOS CONVICÇÕES JÁ HÁ MUITO DESBOTADAS.
NA CONFUSÃO DE MISTURAR CORES APAGADAS
E ALINHAR NOVAS EQUAÇÕES
PERCO O POEMA RABISCADO LOGO À PARTIDA
NUM APARENTEMENTE PROVIDENCIAL GUARDANAPO.
VASCULHO TODOS OS BOLSOS
AS CIRCUNVOLUÇÕES DO CÉREBRO
À PROCURA DO MÍSERO PAPEL.
SEM QUALQUER SOLUÇÃO
DEAMBULO ALGUMAS HORAS PELAS IMEDIAÇÕES DA SORBONNE
À ESPERA DALGUMA INSPIRAÇÃO DE ÚLTIMO MINUTO.
NADA ACONTECE. RESTA-ME APENAS
ALMEJAR POR MELHOR SORTE COM AS MINHAS EQUAÇÕES.
PS. PENSO QUE SÓ A TEATRAL EVENTUALIDADE DE ACABAR POR ENCONTRAR O TAL GUARDANAPO, SALVARIA O PERDIDO ÁTOMO DE POESIA (E POUPARIA O LEITOR DA LEITURA DESTE HETEROGÉNEO POEMA). INFELIZMENTE TAL NUNCA OCORREU. RESTA-ME EVITAR OS GUARDANAPOS COMO SUPORTE DE FUTURAS LINHAS.
*
S. POST MORTEM
NÃO HÁ COMO DESENHAR O FUTURO NA TELA CLARA DO CÉU ESTIVAL
ENQUANTO AINDA ME ARDE NOS OLHOS O PASSADO.
INCERTO ENTRE SER HABITANTE HESITANTE DE CAMINHOS CIRCULARES E
NAVEGANTE ONÍRICO NO RIO DO PRESENTE
DESCUBRO QUE PARTISTE
SEM DEIXAR ESCAPAR QUALQUER MURMÚRIO DE DOR.
QUE ENLUVADA MÃO INJUSTA SE LEMBROU DE TE SUBTRAIR DOS TEUS
DEIXANDO-ME ORFÃO DA VISÃO DOS TEUS LONGOS CABELOS.
CERTAMENTE A MESMA QUE, POR MEIO DE TERCEIROS, ACABOU
POR ME FAZER CHEGAR A TRISTE NOTÍCIA.
AS PONTAS DOS MEUS DEDOS JAMAIS TOCARAM A SEDA DA TUA PELE
MAS A HARMONIA DA TUA VOZ VIVE AINDA NA MEMÓRIA.
FICÁMOS PARA SEMPRE CIRCUNSCRITOS À TROCA DE OLHARES
E A UMA ATRAPALHADA CHAMADA TELEFÓNICA.
FOSTE UM RISCO NA ALMA.
BELO E CALMO.
DESLIZAREI MINHA PENA, ATÉ AO MEU PRÓPRIO FIM,
NO SULCO PROFUNDO DEIXADO PELA TUA ETÉREA FIGURA.
*
Vocalizações
Vibram naturais cordas que vocais
são o instrumento ressonante
de conquistar pianamente
o consolo da espécie.
Palradas as palavras
cúmplices na inconsciência
de articular-se na espiral
de estarmos no centro.
Ímpar o paradoxo
de estar na solução da equação de onda
o código comum
que nos faz colectivos.
Jangadas as palavras que no sopro da voz
cortam lagos de tinta
na busca de margens duvidosas.
Mais seca a terra que poesia
é a análise espectral da vida.
Aluvial a poesia oculta nas entranhas do mundo
em mecanismos que dispensam palavras
ou as exigem mais modernas.
Automático
o discurso de encontrar o compromisso
entre a utopia e o devir iluminista
dos males o conserto.
O concerto de lamentos
dum uníssono de mortes desprovidas de sentido
no absolutismo de palavras convertidas em enigmas belicosos
exigentes do requiem de avivar memórias.
Declaram as palavras
guerra ao sofrimento anónimo
e cantam estocadas ao âmago
de causas sempre
as mais perdidas.
Secam os sons na derrota total de cada passo
avarias do relógio duma escrita
que são poros de declarações
inevitávelmente estéreis.
Caminhos mórficos no sussuro
de sílabas que são
fórceps de nascer palavras novas
na frescura do verão desfocado.
Maquetas de largas avenidas
num futuro de jardins que são cidades
e espelhos de almejar
o sol de crianças a correr
e paixões com pigmentos do beijo eterno.
*
Oposições
Na busca duma impermeabilidade singular
no oceano da pluralidade de sermos a cada
instante mais numerosos.
Recitar exercícios de disfarçar com a maquilagem de ambiguidades
faces marcadas pela solidão que caminha livremente pelas estradas.
No interior do círculo de dunas
que circunda cada casa
surpreender-se com a expansão acelerada do Universo
enquanto se representam no teatro dos espelhos
vidas interiores que se contraem desesperadamente.
*
PRELÚDIO DE OUTONO
NÃO ERA O AMOR QUALQUER PAZ
ATÉ SENTIR-TE NO CALOR DO SANGUE QUE FLUE
PELOS MEANDROS DA NOITE QUE SE INICIA.
NÃO TINHA O AMOR QUALQUER SUBSTÂNCIA
ANTES DE ESPALHAR-SE NEVE
SOBRE OS CAMPOS EXAURIDOS DO SONHO
E SEMEAR A CLARIDADE MATINAL
NA PENUMBRA DO MEDO.
NÃO ERA O AMOR QUALQUER VERDADE
CIRCUNSCRITO AO EXÍGUO
HORIZONTE DA RAÇA, PÁTRIA, COR OU CLASSE.
NÃO QUERIA O AMOR
MISTÉRIO REVELADO
NAS ESQUINAS DO PASSADO
E SEM HIPÓTESES DE BATER ASAS A QUALQUER INSTANTE.
NÃO SE EXIGE QUALQUER AMOR
NA QUOTIDIANA COMPARÊNCIA
DO CONTRATO MEDICINAL DE PRAZERES EM GOTAS.
ERA O AMOR TACTO
DE PELES QUE REVESTEM
O ÂMAGO DO BEIJO SEMPRE CASTO
REFEITO PELO DESABROCHAR DO DESEJO.
HAVIA MAIS PURO O AMOR
AO SURPREENDER A FELICIDADE SEMI-NUA
RECOSTADA NO DIVÃ DA TARDE
AINDA FRESCA DAS TINTAS DO ARREBATAMENTO.
ERA O AMOR SERMOS MAIS FORTEMENTE
REJEITANDO AS TEIAS DA DESLEALDADE
DEIXANDO-NOS ESTAR NO DESNORTE CALMO
DO LABIRINTO TRANSPARENTE.
AMOR ERA O ÚLTIMO FÔLEGO DA ARAGEM
NO VERÃO QUE SE ENCERRA.
*
Felicidade amarela
Extingue-se a força fogo
para cair-se no calabouço
que se carrega às costas.
Estalam os ossos
acomodados ao conforto
duma infelicidade indefinida
que não se molha à chuva
que não se seca ao Sol.
Parecem quase todos
frequentar terapias para a incapacidade de ser
e por entre quiméricos diálogos
declaram-se perplexos
com a ausência de nexo do sistema.
Sempre sorriem ao evocar
dos chefetes as bizarras doutrinas
no flartar cúmplice de idolatrias patéticas.
Pretendem-se melhores
que os amadurecidos no desencanto
duma anacrónica honestidade.
São certamente mais felizes.
*
Água
Transparentes as águas
que correm fontes de adiar sedes hodiernas.
Turbulentas as águas
carregadas pela gravidade
de miragens encalhadas
no limbo do tempo.
Águas transformadas em névoas
de branquear memórias
e pintar de mistério o desgaste
de equivocadas esperanças.
Salgadas águas no silêncio do útero,
na vertigem de mar aberto
na busca de ilhas perdidas.
Branca água
no fascínio duro do diamante
o gelo,
montanhas doces do planeta-casa os confins.
Tríptico metastável
de escolher destinos
na termodinâmica de vidas
que vibram na teimosia muda de fugir
da inevitável a entropia.
Navegar no instante
ao longo do rumo incerto
cabotagem de cardinalidades incertas
pelas costas de ilusões
e reconhecíveis ondulações no rebentar das ondas.
Subtis murmúrios da chuva estival
interrompendo quase o monólogo constante
duma solidão que se expande
pelas escarpas da loucura.
Perenes moinhos,
defesas varridas
pelas força voraz de águas
que mais céleres destroem castelos de vida
nas certezas de areia.
Águas que na ribeira
são calmas de alisar
linhas turvas
e iluminar sentidos.
Lágrima, saliva e sangue
águas fluxos familiares
de histórias que cessam
escrevendo na superfície
imagens partidas
de poemas inacabados.
*
FOGO
FUGAZ LUME
AS PALAVRAS AFIRMATIVAS
NAS BALADAS
QUE RECITAM O FUTURO.
PURA A CHAMA
QUE PURIFICA
AS CINZAS DO PASSADO
E ESTILIZA ANCESTRALIDADES
DISPERSAS.
FRÁGIL A CIVILIZAÇÃO A QUEIMAR-SE
NA LENTA AGONIA DO FOGO
DE ÓDIOS E AMBIÇÕES.
SEMPRE SOMOS A VOLATIVIDADE
COMBUSTÍVEL DUM DESESPERO
QUE ENFURECIDO PODE
BUSCAR FOGOS OUTROS MAIS TOTAIS.
*
Ar
Primordial o espaço que aberto
fez-se letra-e-cifra, Aleph,
e na leveza dum sopro transmutou a sombra morte-e-mentira - MET
Hêth Mêm
no brilho de ser/estar verdade-e-vida - EMET
Hêth Mêm Aleph.
Cálido o ar que divino animou a matéria bruta
Milhares de milhões de anos na sopa das leis da física
Fósseis que da origem cristalizaram proto-poemas
Ventos
ar-sopros para a vida letras.
*
Terra
Maior o engenho
de calcular a construção de mundos
e te-los sólidos sob os pés.
Escondem grandes milagres os mais ínfimos tufos da deusa Gaia.
Abrigo azul da vida a casa,
Maternidade suprema,
Prancha para mergulho no Universo.
*
Napapiiri
No interior do círculo mais ao norte,
varrendo a tundra
cortando a taiga de abetos e bétulas
distorcendo o céu desenhado na superfície de milhares de lagos:
o vento dum tempo ártico.
O silêncio loiro
duma civilização agressiva na contabildade de cifras
apagando as lúgubres chamas da música
de alhos treinados na subtil classificação das neves.
Não foi a solidão
que emudeceu a dura arte
da caça e da pesca
nem as agulhas dum frio que na alma
se mudou para aldeias de betão.
Foi a mesma tristeza que nos abate
quando entendemos que se perdeu a multiplicidade do branco.
*
ATAQUE
DESVIADOS IRREMISSÍVELMENTE
DO VÍCIO SOLIPSISTA DE HABITAR
PARAÍSOS FÁCEIS
CONSTRUÍDOS A PARTIR DE FICÇÕES E
PAISAGENS VIRTUAIS.
UMA VIOLÊNCIA QUASE ORDINÁRIA
GANHOU ASAS
E ACABOU POR CORROMPER O CÉU.
TORRES DE ASSALTAR O RECANTO DOS DEUSES
SUCUMBIRAM À MULTIPLICIDADE DISCONEXA DOS IDIOMAS.
NO RUBRO DOS ÓDIOS FOI INCINERADO O PÓS-MODERNISMO.
*
NOORDWIJK
ARRASTAVAM-SE NA GARGANTA AS PALAVRAS
DUM MAR CINZENTO E QUASE SÓLIDO
NO SOPRO DE ESQUECIMENTOS FORÇADOS.
DIFUSAMENTE CONSTRUIDA A PRESENÇA
CAPTURADA PELA FUGAZ
IMAGEM ULTRA-SÓNICA.
PERDEU-SE MAIS UM MUNDO
QUANDO O LABIRINTO DAS HIPÓTESES
ESCOLHEU O PONTO NEUTRO DO DESTINO.
CORTOU-O CERTAMENTE O VENTO
QUE DEIXOU OS PASSEIOS COBERTOS PELAS AREIAS.
*
CLEPSYDRA
A PUREZA DA GOTA FLUINDO DESDE O MANANCIAL SECRETO,
A SÍNTESE E FORÇA DAS PALAVRAS LIMITADAS PELA QUEDA DA DERRADEIRA GOTA,
UMA PARA CADA AGORA
PARA CADA ETERNIDADE,
UM VÓRTICE NO RIO DOS FRAGMENTOS
CAPTURADOS PELO INFINITO DE CADA INSTANTE.
A SOMBRA SOB O CARVALHO,
A VIAGEM SEMPRE FINAL,
A VIBRAÇÃO HARMÓNICA DO CRISTAL DE QUARTZO
E DA LINHA DO CÉSIO,
FASES DE CADA FACE
DO REINO PERDIDO DA VIDA.
O CALOR DO PULSAR DO CORAÇÃO DE CADA ESTÁGIO
INOCULANDO NOS MEANDROS DO TEMPO
OS GRÃOS DA VERDADE ÚLTIMA
A COMPLETAR O CICLO.
UMA GOTA ANTES A EQUAÇÃO PERFEITA
UNIFICANDO A VIDA E A SUCESSÃO INDISTINTA DE GOTAS.
NUMA ANTECEDENTE UMA PAIXÃO ENEBRIANTE,
A FRATERNIDADE PLATÓNICA,
A SUCESSÃO E A SEMENTE QUE A MATERIALIZA NO MUNDO.
NÃO HÁ SEDE DE VERDADE
QUE NÃO FIQUE SACIADA
PELA INVENÇÃO ARISTOTÉLICA
DE SE MEDIR O TEMPO,
E NO GOTEJAR GRAVE O SILOGISMO FICARÁ MAIS QUE CONCLUSO.
AS BORBOLETAS MONARCH ATRAVESSARÃO CONTINENTES E MARES
NA SUA JORNADA FINAL,
AS ENGUIAS SEGUIRÃO O CANTO ATÁVICO
E RUMARÃO ATRAVÉS DA POESIA DESCONHECIDA DOS OCEANOS
PARA SE PERPETUAR E PERECER,
AS SUPERNOVAS EXPLODIRÃO E LANÇARÃO SUAS CINZAS
PARA FERTILIZAR A NOSSA CASA LÁCTEA,
OUTRAS MAIS LONGÍNQUAS
REVELARÃO A QUINTA ESSÊNCIA DO MAIS ENIGMÁTICO VAZIO,
BALIZANDO A EXPANSÃO DO ESPAÇO PARA ALÉM DOS CONFINS DA IMAGINAÇÃO.
IMERSOS NA ESFERA DA NOITE PERFEITA,
A MÚSICA SIBILINA DOS ASTROS
FAZENDO-NOS COMPREEENDER A SUMPTUOSIDADE DE SERMOS FILHOS DO COSMOS,
DE TERMOS NO SER PARTÍCULAS DO INÍCIO DOS TEMPOS,
CÉLULAS DOS PRIMÓRDIOS DA VIDA,
DE EVOLUIRMOS, COMO TUDO, SEGUNDO A LEI UNIVERSAL DA DISSOLUÇÃO.
NO LIMITE DO CONHECIMENTO,
NA SUPERFÍCIE DA PELÍCULA ESCURA,
DEIXAREMOS A MARCA DA NOSSA ESPÉCIE
E EXIGIREMOS UMA DIGNIDADE MÍNIMA
PARA SE VIVER NO MUNDO:
CANTAR INCANSÁVELMENTE A RAPSÓDIA DA VIDA
E A MORTE COMO UM DESTINO CALMO,
ESTENDER, PELO MENOS UMA VEZ, A MÃO PARA ALIVIAR A ANGÚSTIA DO PRÓXIMO,
COMBATER APAIXONADAMENTE PELA JUSTIÇA,
AMAR ATÉ AS RAIAS DA LOUCURA, SEMPRE,
DA ALVORADA
AO CREPÚSCULO DA EXISTÊNCIA.
GOTA APÓS GOTA,
PARA NO EXÓRDIO
TER-SE CIÊNCIA DE QUE O TEMPO NÃO É CIRCULAR,
QUE NÃO HÁ UMA SEGUNDA HIPÓTESE
PARA CADA INSTANTE;
QUE O AMOR NÃO SE MEDE PELO ACUMULAR DAS GOTAS
MAS PELA COR DE CADA GOTA,
QUE A VIDA É A GOTA E TODAS AS GOTAS.
NA PRAIA DO TEMPO,
HÁ NA MÚSICA DE CADA ONDA
UMA CALMA INQUIETA
E AS PALAVRAS LEVITAM
NOS CASTELOS DE AREIA DO INEXPRIMÍVEL.
O RELÓGIO DO SR. PESSANHA
NÃO ERA PERFEITO,
O MEU NUNCA SERIA MENOS CREPUSCULAR.
DEIXAREI, QUANDO DO IMPRETERÍVEL ACENO,
ALGUNS DE MEUS ÁTOMOS ESPALHADOS PELO MUNDO:
NOS OLHOS VERDES DE MINHA FILHA UM FRAGMENTO AZUL DE MINHAS MEMÓRIAS,
UMAS POUCAS EQUAÇÕES INCOMPLETAS,
ELEGANTES ATÉ O LIMITE DE MINHAS FORÇAS,
UM POEMA INACABADO.
MAS A LUTA SEMPRE PROSSEGUE ATÉ QUE A GRAVIDADE ARRASTE A GOTA FINAL,
E NAS UNHAS HÁ A TERRA FECUNDA,
A CONTINUIDADE DA ERVA FRESCA,
OS ACORDES DA BALADA ANARQUISTA
O ADAGIETTO DUM MUNDO MELHOR
AINDA QUE NÃO HAJA RESPOSTA SATISFATÓRIA PARA A PERGUNTA,
O QUE SOU ?
NÃO SOU SÓ! SOMOS TODOS !
ENTELÉQUIA,
LINHAS DUM DESENHO CÓSMICO SEM OUTRO PROPÓSITO
QUE NOS FASCINAR COM A BELEZA MÁGICA DE SIMPLESMENTE SER,
HERDEIROS VIRTUAIS DUM PROJECTO QUE CRIOU
PÉTALAS, JARDINS, VENTO, AREIA, NEVE, NÉCTARES E GALÁXIAS.
SOMOS OS LEITORES DO TEXTO INFINITO,
DA FÓRMULA QUE NÃO SE FECHA.
MAS NÃO HÁ QUALQUER DESESPERO,
POIS NA N-ÉSIMA GOTA PERCEBEMOS
QUE O INFINITO PODE TAMBÉM ESTAR CONTIDO
NA PRIMEIRA LETRA DO ALFABETO HEBRÁICO, ALEPH,
ASSIM COMO TODA A HISTÓRIA HUMANA
NO SORRISO DUMA CRIANÇA.
QUE MAIS SE PODE DIZER ?
QUE AS GOTAS SUCEDEM-SE INEXORÁVELMENTE
E QUE A JUSTEZA DA DESCOBERTA
INDUZ APENAS UMA SOLIDÃO CALMA ?
O SOL NÃO SÓ SE PÕE TODOS OS DIAS,
MORRE LENTAMENTE
MAS APESAR DO QUOTIDIANO DESASTRE
SABEMOS QUE NO CREPÚSCULO
TODA PAIXÃO
TEM A PRIMAVERA NOS CABELOS
E QUE O ENTRELAÇAR DE BRAÇOS
É PERENE
COMO O ARDOR DO BEIJO
E A HUMIDADE DO SEXO.
O JÁ APRECIÁVEL CAUDAL DO MEU TEMPO,
AS FISSURAS NA FACE,
E AINDA TANTAS PEÇAS DE VERDADE POR SE ENTENDER,
MONTANHAS POR SE REMOVER,
E O SANGUE SEMPRE A FERVER
NA PROCURA INCESSANTE DAS RESPOSTAS.
ESTAVA, ESTOU, ESTAREI CONDICIONALMENTE.
ERA FORTEMENTE, SOU DEBILMENTE, CESSAREI.
CONSCIENTEMENTE, SOMOS MUITO FUGAZES NESTE MUNDO,
SÓ NOS RESTA SERMOS PLENAMENTE.
ESTE É O AXIOMA MAIS EVIDENTE DO MEU PRECÁRIO DISCURSO,
A ESSÊNCIA DA MAIS VORAZ LIBERDADE,
DO MAIS ABRANGENTE SONHO.
*
ORFEU B.
MARÇO 2004
DEDICADO À MENINA MARINA, AUTORA DO POEMA
A NOITE
A NOITE ESTÁ FRIA ALONGADA.
ESTRELAS A BRILHAR COM AS SUAS FORMAS
E EU PENSANDO: SERÁ QUE LÁ AO LONGE
A LUA SENTE VIVE VÊ PROCURA.
A LUZ DO DIA DÁ ALEGRIA
SERÁ QUE TAMBÉM VIVE VÊ PROCURA
CLARO QUE NÃO
MAS NA NOSSA IMAGINAÇÃO HÁ TUDO
E TAMBÉM DEVE TER A LUA E O SOL
A VOAREM A SENTIREM A PROCURAREM E VEREM.
15 ABRIL 2001.
Tinha deixado a torpe arte dos versos
A Gastão Cruz
A mão incontinente no alinhar precário palavras
anos mudos esquecidos
sob o Sol morno da Lisboa idioma a casa.
Não seriam os versos que salvariam
noites ruidosas
nem dos tercetos a arte
por mim nunca encontrada.
Conheço mais torpe meu outro ofício
seus-meus erros
foi do Tejo o paralisante memento carregado pelo vento.
Poderia a prenda recusar da noite a breve estrofe
menos so não ficaria a alma fria se
na penumbra fossem os grãos dispersos.
Tinha planeado deixar a torpe arte da vida
mas escrevi mais um erro incompetente o verso.
*
Jardim de gestos
A intempérie polindo a
caverna profunda
dum inverno na alma;
nas águas dum Março obscuro
sob a pele enrugada
o pulso a cada palavra mais débil.
Na concavidade da ígnea rocha
a geologia duma esperança fóssil
que é ferida aberta pela lava da lembrança.
O hálito quente duma solidão de seda
em ilhas num idioma bíblico e ancestral;
mar contra sal corpo
espuma duma fadiga milenar
ao concluir-se que é neste desnorte que se há de viver.
A precariedade de qualquer solução
ilusão de estar a um estender de braço do salto
no coração do turbilhão que é só passado
e nunca se realiza.
Uma estátua para cada frustração
e um jardim de gestos singelos
sob as gotas pesadas duma chuva
que nunca pára.
*
Pessach
Avós raízes mais fortes da reminiscência hebráica
o Pessach.
Evadimos donde escravos éramos
para compreendermos
do deserto o fogo
do pão ázimo as dez leis.
Do tempo prático escravos ainda somos
deste Egipto outro nome.
Não pretendia elaborar linhas estéreis
para a fuga que sonhava fértil.
Algum ouvido invento
para comigo também deplorar
a demolição das casas
e dos pobres o massacre.
É mais amarga a injustiça no Pessach
quero-a na companhia
dalguma indignação.
Um sofrer na concha
do orgulho silencioso
destilando do desespero
para a luta a seiva.
O grito contido nas imagens de cada oração
sentido recíproco
que se constroe no ombro a ombro
da marcha.
É no dividir do pão ázimo
que se entende do Pessach a nova.
Já não somos como éramos depois
do vinho e o sabor das raízes fortes.
*
Shabat Poema
A utopia na cruel semana espessa
é o shabat que nunca foi.
No descanso semanal das equações semi-vivas
o sonho de palavras marcadas com o dedo de deus
rasto através do enigma desvendado
ainda que ausente a mais mágica das letras.
Por entre as brumas dum diálogo tosco qualquer
linhas candidatas
assumem seus postos
nas trincheiras que defendem o poema.
No ápice do combate
a morte inevitável da poesia
que jaz no campo de batalha dum pedaço de papel.
Durante a contagem das palavras sobreviventes
um breve epitáfio é escrito
enquanto as primeiras equações
acordam com a aurora da semana que se inicia.
*
Contágio inflamatório
A dúvida cinge o exagero
perturba da fala o gume
inteligentemente desencaminha o discurso inútil.
A dúvida da descoberta a mola
subtil ginástica de lógica
transformando o mistério apolíneo
na obviedade obesa
que cristalizada repete já outra inquietude.
A dúvida nunca se resume no espelho perfeito
imagem a morrer raquítica
na certeza dócil
da ignorância máxima.
A dúvida com suas muitas patas
a subir e descer pelo corpo
num contágio inflamatório
exigente da resposta grave, precisa,
inadiável
que aceita a forma espaço compacta
do poema ou equação.
Não há na solidão da solução
erro ou certeza
é duvidoso o exercício de capturar
do resultado a solidez
que inquieto já é outra pergunta.
*
Circuito Integrado
Falam-me dum verbo electrónico
integrado
na ágil invasão das mentes porosas
no circuito das poltronas
consonantes com o conforto
de soluços fabricados já sem dor.
Ensinam-me como descodificar
dos electrões a palavra
no grande engano
das noites hipnóticas.
As paredes já não dividem
este uníssono de ecrãs
a somar no uniforme pensar colectivo
da democracia o simulacro.
Contam-me que o éter veta qualquer mentira
são do nosso tempo estas imagens
que os olhos escolhem da frequência a verdade.
Virtuais sempre são as paisagens
que nos sonhos habitamos
não há como defender a musa do verso pobre
desnuda da disciplina publicitária.
Os tubos de electrões dentífricos
estão autorizados a simplificar o resto
e já não se desliga versão electrónica do poema o futuro.
*
Copiar o Tejo
Aprendemos com o rio
o sistema de suportar os outros elementos;
não nos roubam o caudal
de sermos mais calmos
que o tempo das águas
e o possível de cada margem.
Não é o fluxo de passarmos
que nos arrasta para as margens impróprias
correntes são de sermos contra
a luz reflectida
de cada essência o tempo certo.
É determinista a condição caótica
de estarmos fundeados no que somos
não há como se evitar o mar
no âmago do relógio é o vento o escultor de todos os gestos.
*
25
Não seria neste Abril
que faríamos, àforça dos cravos,
o Sol para todos mais brilhante.
Dizem-me que não há sequer a mesma urgência, não creio.
Adiamos o mudar mais forte para uma primavera que menos fluida
não esteja interrompida.
Enquanto ganho forças, minha filha fica sendo a minha revolução.
*
Madredeus
Guitarras orgulhosas
criaram da voz sua pureza
num sonhar certo o canto perfeito
do mundo reinventado.
*
Revolução, nós que te amávamos tanto !
A Lula, Salvador Allende, Cohn Bendit, Geraldo Vandré e tantos outros
Surpreender-se com a profundidade dum amor submerso
ao despertar com o coração carregado por baladas de mobilização.
Nós que sonhávamos com alamedas de homens melhores e sociedades mais justas,
que pensávamos que o futuro seria nosso
tinhámos apenas lágrimas como companheiras.
Descobrimos que os actos não redimem as manhãs silenciosas.
Habitar no labirinto longínquo,
tão longe de ti
�revolução
que nós amávamos tanto ...
Nós que desejávamos o plural das coisas
não sabemos voltar aos livros que te inventaram
ou às lembranças que nos agitavam o sangue;
as palavras de ordem perderam-se ao longo do
caminho
e os heróis parecem estar todos no passado.
Quando aprendemos a viver na solidão dum
futuro de tristes meandros
os sonhos parecem ser anacronismos platónicos;
mas há manhãs que despontam timidamente
e executam adágios que
emprestam sentido à esperança.
A miragem da revolução renasce na rapsódia
de todos os dias.
Nas dobras do coração que insiste em cantar a vida
mesmo no seio escuro do desespero.
*
CORAÇÃO DE ESTUDANTE
JUNTO DO AMANHECER INCERTO
DA RETARDATARIA ESTRELA O BRILHO
ÁGUAS FUGAZES DUM LAZULITE PÁLIDO
TERRITÓRIO VAGO
DO PASSADO MAIS SÓLIDO
QUE O ESTAR NAS VEIAS DO REAGIR APENAS.
QUERÍAMOS A REGIÃO GRÁVIDA DA NECESSIDADE
DE MUDAR TUDO
CONQUISTAR AS MURALHAS DO CREPÚSCULO E
RETARDA-LOS TODOS.
ERA SEMPRE O CORAÇÃO TRANSBORDANTE
RASGANDO IRREVERENTEMENTE TÉDIO E MEDO DOS DICIONÁRIOS,
TEMPO DE ESCULPIR O CORPO DA AMANTE
NO MÁRMORE MAIS RARO DO INSTANTE.
ERA BANHAR-SE SÓ
NO OCEANO DO TUDO POSSÍVEL
DOS INFINITOS AO DOBRAR DA ESQUINA
DO MUNDO PERFEITO
CONSTRUIDO COM CUBOS DE GELO DE PAIXÃO
NUMA IDOLATRIA SOL DE
DERRETER QUALQUER DÚVIDA.
*
A Jusante
DA VIDA A CONTRACAPA
COM ESCASSAS INSTRUÇÕES PARA ULTRAPASSAR A ESQUINA DA INJUSTIÇA.
O BEIJO DA PRESENÇA INVENTADA
AMOR SEMPRE SONHADO.
IMAGEM PROCURADA
E RETIDA NA SALIÊNCIA DO PENSAMENTO
DE REAGIR
E SUBSTITUIR À FORÇA
A SENSATEZ DA ESPERA.
HÁ QUE SE DOAR SANGUE ÀS CAUSAS
QUE FAZEM AS FONTES LATEJAR
E RECUSAR A INÉRCIA VÍTREA
DE SE ESTAR À ESPERA DAS BADALADAS DA HORA.
NO CENTRO DUM SENTIR PRECÁRIO
REMANESCENCIAS DE AFIRMAÇÕES INCAUTAS
SESTROS DECORRENTES.
NAS ESCARPAS DUM AGORA INSÍPIDO
TER A MONTANTE
A CERTEZA QUE NADA PODERIA TER DADO CERTO.
OLHOS IMPACIENTES
JÁ MIRAM A JUSANTE
A FOZ IMPRONUNCIÁVEL.
*
Aceno eu mudo
O aceno mudo
quando partem os comboios
deixando o momento partido.
Vão para as cores mais lisas do paraíso
concêntrico ao sentimento puro
ou para um desterro Auschwitz
no seio da mórbida maquinaria da certeza.
Nunca o saberei,
refém onírico que estou da limpidez do Sol poente.
Que frio mistério claro agora
poderia apagar da memória
o calor dos comboios a partida ?
Não seria o futuro perto
ou o aceno eu surdo.
Nem o poema tenso
trespassado de sentidos clorídricos.
Talvez o poderiam olhos sem luz
que entendem das trevas as nuances
mais capazes de encontrar da vida um arrepio.
Comboios nunca voltam
vamos nós ao seu encontro.
*
PEDRAS SEMI-PRECIOSAS
DISPERSORA A MEMÓRIA
NUM RETER VARIÁVEL
NO ARQUIVO GELATINOSO
DA LEMBRANÇA A CHAVE.
NÃO SÃO OS DIAMANTES
QUE ME DEIXAM
NEM A PARTÍCULA DE SONHO QUE ME GUIA AO LONGO DO DIA CINZENTO
SÃO SEMI-PRECIOSAS AS PEDRAS QUE ME FOGEM
ÍNFIMAS FRACÇÕES:
A IMAGEM DA AREIA ARRASTADA PELO VENTO
A LUZ DECOMPOSTA PELA ESPUMA DA ONDA PREGUIÇOSA
O BEIJO ADOLESCENTE SOB A LUA QUE SE APAGA.
FRAGMENTOS QUE DEVERIAM FICAR
POLARES NA ESTRELA DA VIDA
DUPLAMENTE DISSIPADA.
VEM DO PASSADO
O PROPÓSITO PERDIDO
NAS ENTRELINHAS DA REMINISCÊNCIA.
É MAIS LENTA A SEGUNDA VIAGEM
POR ENTRE A PAISAGEM MINERALIZADA
DA FOTOGRAFIA ENVELHECIDA.
SABERIA INDICAR O LUGAR PERFEITO
DA MEMÓRIA DESCOLORIDA
REENCENAR A EMOÇÃO SOBRE A FOLHA D'ÁGUA
DE CICATRIZES QUE SÃO MENOS DORES QUANDO ABERTAS.
É MAIS FRIA A INVASÃO INESPERADA
DAS SOMBRAS DO DRAMA SURREAL
NO TEATRO CORROÍDO INSECTOS.
FINALMENTE NA MEMÓRIA
O AGORA DUMA ESPESSURA COMPACTA
NA CERTEZA ENGENHEIRA
DO PROJECTO PERFEITO
EDIFICADO NAS NUVENS
DA MEMÓRIA REENCONTRADA.
*
METALURGIA
PROCURÁMOS IRREGULARMENTE FORJAR
COM PALAVRAS ESSENCIAIS OS METAIS NECESSÁRIOS;
TINHAM CADA UM SEU TEMPO E FUNDIDOS
ERAM ESTRELAS FLUINDO ATRAVÉS DE POEMAS INCANDESCENTES.
NÃO SERIA O CALOR MOLAR VARIÁVEL DE CADA METAL SUA POESIA
NEM SERIA ESTA PERIÓDICA
COMO O MODO DE GOLPEAR COM CORAGEM
O CALOR EVANESCENTE DAS PALAVRAS.
TENTÁMOS TAMBÉM MOLDAR METAIS COM PALAVRAS NECESSÁRIAS
DO OFÍCIO A ASTÚCIA NO MEDIR DE CADA POEMA A DUREZA
FORTALECENDO-O COM O METAL
CORRECTAMENTE TEMPERADO.
NÃO HÁ ESCASSEZ NA TÉCNICA DE PALAVRIZAÇÃO DOS METAIS
HÁ AMÁLGAMAS DE METAIS E PALAVRAS
NOBRES COMO O MOMENTO DA DESCOBERTA;
JUSTIFICA-SE SUA VALIDADE NA EXACTIDÃO DE CADA IMAGEM NA
CONSTELAÇÃO DOS METAIS POLIDOS DO POEMA.
NO FAZER E REFAZER ARTESÃO
FORJÁMOS DA VIDA UMA POBRE NOBREZA
INCANSAVELMENTE NA ARTE DE METALIZAR POEMAS
E INVENTAR AMÁLGAMAS A CADA DIA MAIS PERFEITAS.
CONSUMIMOS AS MELHORES HORAS A EXPERIMENTAR
COM PALAVRAS ENCONTRADAS CASUALMENTE
E ESPERÁMOS NOITES CLARAS EM VIGÍLIA
PELA MELHORIA DA QUALIDADE DOS METAIS.
*
Fernando Pessoa Revisitado
Deixara na torrente de páginas
da solidão um sangue
nas entrelinhas
do sentir múltiplo
de vidas mais fingidas
que as vividas.
Dias claros ou chuvosos
viagens jamais concretizadas
eram-lhe completamente indiferentes,
cadinho para a poesia
numa prosa de contar
como cada perfil
aceitou resignado seu destino
de simplesmente escrever.
Impossível não supor os
heterónimos
como máquinas perfeitas de traduzir
sentimentos em palavras.
O homem real nunca fora menos que lenda
no mundo platónico
dos que amam a poesia.
*
A ORIENTE
MANEIRISMOS SUBTIS E VELADOS
CIRCUMNVOLVEM A CRUEZA DOS FACTOS
CONSTRUINDO DA MENTE UM ORIENTE
ADEMANES DE MODOS MAIS NOBRES.
ADORMECIDOS NOS INTERESTÍCIOS DO TEMPO
ESTAR QUAL VULCÕES
AMEAÇA EXPLODIR ANSIEDADES
EM CUJAS ORLAS A VIDA ESCULPE UMA GRANDE SOLIDÃO
NA PEDRA.
A ORIENTE,
LABORES EFÉMEROS
EDIFICAM SOBRE A PENUMBRA DO SILÊNCIO,
SEIXO APÓS SEIXO,
CATEDRAIS NA ETERNIDADE.
*
Dilema linguístico
Fora das águas a invasão
interrompendo o estar sobre a branca areia;
ficara o ser menos intenso
ao habitar a dicotomia indelével
de sentir-se íntimo
ainda que não se estivesse.
Estaria quando do agora o foco
no fogo fátuo de reagir às propostas do tempo concreto.
Ser não exige declarações tão peremptórias
vai-se sendo ao longo do caminho
emergindo do rumo uma definição.
*
ESFORÇADOS
DO EXERCÍCIO O ASCETISMO
NO FILTRAR DE ALGUNS CONTEMPORÂNEOS
A MIASMA PRODUZIDA.
SÃO SOMBRIAS AS PAISAGENS
QUE PRETENDEM EDIFICAR
E MENORES OS BALDIOS QUE QUEREM GOVERNAR.
TANTOS ROMPANTES DE PATRIARCAS DE APÊNDICE
QUE SÓ LHES RESTA NOMEAREM-SE A SI MESMOS
DITADORES DAS CABEÇAS DE ALFINETE.
PLANEIAM TÃO AFINCANDAMENTE
MEU AUTO DA FÉ
QUE ME SINTO CINGIDO
A LHES AGRADECER O ENGENHO
E AS LONGAS HORAS DE LABOR INTELECTUAL
QUE ME SÃO DEDICADAS.
*
Poema do Orçamento de Estado
As sombras discutem animadamente a lógica dos cifrões.
O mau tempo dispersa os discursos que hipnotizam mentes propensas ao
contágio. Parece não haver imunidade possível contra a retórica baseada na
ignonímia humana e nas frustaçõe decorrentes. Estes cobradores de fraque
constroem uma ideologia de Babel em cada esquina enquanto frequentam cursos
de formação para vampiros. Imaginam domesticar as criaturas e privatizá-las
para a exploração comercial dos seus serviços.
*
MODELO CÓSMICO PADRÃO
EXACTA
A COMBINAÇÃO DE PALAVRAS
QUE SÃO METEORITOS IMPREGNADOS
DA DESCOBERTA A SÍNTESE.
LÚCIDO O BRILHO DA AURORA AUSTRAL
NOS SÍMBOLOS DA EQUAÇÃO DO INSTANTE
INTUIÇÃO MAGMA PROFUNDA
DO PARADOXO NUCLEAR
NO MAGNETO DA VERDADE.
ASSUME-SE SER A SOLUÇÃO O POEMA
METAMORFOSE
DEVIR DA SIMETRIA BOTÂNICA
EM CONSERVAÇÃO DA LEI O ENIGMA.
SEJA O ACELERADOR DA LINHA PARAÍSO PERFEITA
DA SUBSTÂNCIA PRIMORDIAL A ANÁLISE
DE INVENTAR
DAS INTERACÇÕES
A MAIS ELEGANTE
SOB O MICROSCÓPIO
DO FUNDAMENTO A TEORIA.
SEJA UM TELESCÓPIO O POETA
A DESENHAR NAS GALÁXIAS
A POESIA RAREFEITA
NAS CAMADAS DA MAQUINARIA
DE ESTAR NO CENTRO
DA PAIXÃO CURVILÍNEA DE VIVER NO FLOEMA DO MISTÉRIO.
*
CINZELADURA
NÃO OBTERIA DA ESCULTURA QUALQUER ARTE
CINZELANDO O SILÊNCIO
E O ESPAÇO DEIXADO VAGO
DA ESCOLHA MAIS UM ERRO.
SERIA O TRANSFORMAR INSTÁVEL
DA PRIMAVERA O MUNDO
NA SURPRESA DE CONTACTOS
COM ESTRELAS E IDEIAS DE CRISTAL.
EVOLUE NA PUREZA DA NOITE
A CUMPLICIDADE
DE PALAVRAS POUPADAS DA ESTERELIDADE ABSOLUTA
NUMA POESIA DEMASIADO ESCASSA PARA COMPENSAR PERDAS
OU RENOVAR ASAS PARTIDAS DE ESPERANÇAS
NO VÃO ESFORÇO
DE MULTIPLICAR A ANTROPOLOGIA SUBJACENTE
DOS IDIOMAS AS BARREIRAS SUPERADAS.
SERIA O POEMA MAIS PLENO
NA FLEUMA DO PLANO CLARO
DE CONSPIRAR COM O VENTO
O CONTEÚDO ARENOSO DO TEXTO.
TERIA QUE MERGULHAR NO VIVER ESCRUPULOSO
DA DOR HONESTA
PARA ENTENDER DA ESCULTURA RESTAURADA
A FÓRMULA AINDA VÁLIDA.
*
CALOR VIAJANTE
ESCREVERA A VIDA COMO UMA VIAGEM
PARA CONVIVER COM PAISAGENS AO INVÉ DE SENTIMENTOS.
FORAM VELAS AO VENTO
NO DESLIZAR DAS PÁGINAS SONORAS
DE HISTÓRIAS CUJAS CONCLUSÕES ERAM CINZAS À PARTIDA.
DAS ONDULAÇÕES A CAUSA MAIS PROVÁVEL
DE INVENTAR NAVEGAÇÕES NA SALSUGEM FRESCA
DE DIRECÇÕES REDESCOBERTAS.
FORA SEU COMPASSO A GEOGRAFIA
NO PERCORRER COM ESPANTO
OS ELEMENTOS FUNDIDOS
NO CALOR SEGURO
DO VIAJANTE SUA ALMA.
ERA DESTINO INEVITÁVEL A DISSOLUÇÃO
NA PAISAGEM ABERTA
DETALHADA NAS GRANDES CARTAS
DA GEODESIA HUMANA.
FÚTIL QUALQUER PLANO FORTE
DE CIRCUMNAVEGAR OU EVADIR
A VORAZ ILHA DE FOGO.
FORA DA VIAGEM A SAGEZA
ENCONTRAR MODESTO UM RECANTO
NA EXTENSA TERRA DESABITADA.
*
QUEDA LIVRE
ABRUPTAMENTE ÍNGREME O TEMPO
DE CAIR NO VAZIO DA NOITE ESTÁTICA,
DE PROJECTAR A VOZ SEM ESPAÇO
ENTRE PAREDES DA RESSONÂNCIA A VIDA.
FACILMENTE COMPREENSÍVEL A CONCLUSÃO
DE SE JOGAR COM A IMPERFEIÇÃO SÓLIDA DE TENTAR SER;
COMPLETAMENTE OBSCURA A PERCEPÇÃO DA FINALIDADE
DE TODO O ESQUEMA.
*
Paisagem Móvel
A respiração plácida dos elementos da paisagem móvel,
nevoeiro alusivo à superfície de espelho de águas contidas
na linguagem corrente dos eucaliptos e oliveiras
no grito sólido do pinheiro manso
encastrado na solidão orgulhosa do monte.
Claros sinais duma naturalidade abundante
que dispensa prestidigitações de ideias e palavras.
As frases esparsas e desnudas dos sobreiros
no contorno impreciso da serra mutante,
horizonte redesenhado no instante
em que a mente preguiçosa se exercita
na busca do nome exacto para a ave rara.
A amnésia amarela apagando o mundo na celeridade
do avançar dos relógios
deixando marcas cabalísticas nas paisagens persistentes
que já quase desconhecem do rosto em translação
a imagem reflectida.
*
AMOR.COM
DESAPARECEU NA MULTIDÃO
O ÚLTIMO PAR DE HABITANTES
QUE NA URBE
ERA CAPAZ DE QUALQUER COMUNICAÇÃO LÁBIO A LÁBIO.
ESQUECERAM O TERRITÓRIO COMUM
DO IDIOMA HERDADO
E FORAM MORAR NAS PRESTAÇÕES DAS HERDADES DE SEUS APARTAMENTOS,
NO CONFORTO DE SALÁRIOS REUNIDOS POR UM AMOR À PRIMEIRA MORDIDA,
EM DIRECÇÕES ELECTRÓNICAS,
NA PERIFERIA DA GLOBALIDADE
E INFIDELIDADES VIA INTERNET.
JÁ HÁ MUITO SÓ SE FALAVA MIMÍCAMENTE
POR ENTRE COPOS ANESTÉSICOS
E PÍLULAS DE COCAÍNA
MEDICINAIS E COMPARTICIPADAS.
IMPERATIVO ELIMINAR-SE
CERTAS PALAVRAS DO HORIZONTE.
NOVÍSSIMO, O DICIONÁRIO PÓS-MODERNO
PROPÕE A ELEGANTE SOLUÇÃO.
ANOS DE PROFUNDAS E INTENSAS PESQUISAS
PARA SE SANCIONAR REALITY SHOWS, BULL-SHIT, SKIN-HEADS
E COM AUTORIDADE LÉXICO-ORTOGRÁFICA-MEDIÁTICA
PROIBIR E COIBIR VOCÁBULOS DESNECESSÁRIOS E PERTURBADORES
DAS PAISAGENS VIRTUAIS DA NOVA ORDEM MUNDIAL.
FORAM EXTINTAS, ABOLIDAS E PROSCRITAS PALAVRAS COMO
SOLIDÃO, INJUSTIÇA, HONESTIDADE E TRISTEZA.
E DESGRAÇADO O ELEMENTO QUE CAIR NA IMPOSTURA DE AMAR:
JÁ NÃO HÁ COMO SE DIZER ISTO.
CONVENIENTEMENTE, PLANEARAM-SE SITES
PARA REMEDIAR IRRITANTES INDISPOSIÇÕES DESTA NATUREZA:
HTTP://WWW.PLEASURE-INDUSTRIES.ORG/
HTTP://WWW.IGREJAS-PATROCINADAS/CADAUMPORSI/DEUSCONTRATODOS.HTML
HTTP://WWW.MADAMEPLIM.ORG/
HTTP://WWW.MINISTERIO-DOS-SEPULTAMENTOS.GOV/
HTTP://WWW.AMOR.COM/
*
Inflação do Vento
Soprou um vento estranho
veio forte dumas páginas do Ruy Belo
e bateu-me directamente no espírito.
Fiquei prostrado vários dias
ancorado à minha sinusite primaveril
ensombrado por uma melancolia crepuscular.
As coisas já não estavam muito boas
quando o vento só custava 80 escudos
imagine com o preço que andam agora.
*
Over the Rainbow
O veludo de habitar o sonho sempre almejado
de envelhecer no jardim que fazes crescer
simplesmente sendo.
Tempo que vais abrindo a cada nota
com a música forte de seres tu a tocar.
A viagem nos acordes
de construir esperanças frescas
e puras à medida de todas as crianças.
O sol com que dedilhas
as cordas dos meus sentimentos
salvando-me do naufrágio
no sonambulismo de viver imerso em banalidades;
as águas delicadas do teu violino
a reinventar melhor
sempre à imagem da harmonia de cada compasso.
Sei-te minha verdadeira pátria
pela qual morreria todas minhas vidas
e viveria muitas outras.
És a música de crianças mundo fora
para que este seja sempre novo
para além do arco-íris.
*
À PROCURA DO POEMA PERDIDO
SENTADO NO AEROPORTO DO TEMPO
À ESPERA DO PRÓXIMO AVIÃO PARA
OS TERRITÓRIOS AZUIS DE ESPERANÇAS
QUE SÃO CONSTANTES COMO A SOMBRA.
CONSTRUO UM PAR DE ÓCULOS
COM FARRAPOS DE NUVENS
PARA EMPRESTAR SABORES EXÓTICOS ÀS DIRECÇÕES DO VOO.
NO BOJO DO GRANDE PÁSSARO
CONSTROEM AS PALAVRAS A
ARTE MECÂNICA DE LEVITAR
E TER O CORAÇÃO NA CURVA DO HORIZONTE.
COMEÇAVA ASSIM O CURIOSAMENTE PROMISSOR POEMA PERDIDO.
PREPARAVA-ME O ESPÍRITO
PARA REENCONTRAR ALGUM PASSADO QUE AINDA RESSOA.
EM TERRA, A LUMINOSA PARIS
HESITA EM ABRAÇAR O VERÃO.
ENCONTRO SUAS PEDRAS INTACTAS
EM OPOSIÇÃO ÀS QUE ME SUSTENTAM O CORPO.
NADO CONTRA AS CORRENTES DO TEMPO
PARA NAS MARGENS DESCOBRIR
QUE ESTÃO MEUS AMIGOS
SÁBIAMENTE RESIGNADOS À INDIZÍVEL INEVITABILIDADE;
COMEDIDAMENTE
RELEMBRAMOS CONVICÇÕES JÁ HÁ MUITO DESBOTADAS.
NA CONFUSÃO DE MISTURAR CORES APAGADAS
E ALINHAR NOVAS EQUAÇÕES
PERCO O POEMA RABISCADO LOGO À PARTIDA
NUM APARENTEMENTE PROVIDENCIAL GUARDANAPO.
VASCULHO TODOS OS BOLSOS
AS CIRCUNVOLUÇÕES DO CÉREBRO
À PROCURA DO MÍSERO PAPEL.
SEM QUALQUER SOLUÇÃO
DEAMBULO ALGUMAS HORAS PELAS IMEDIAÇÕES DA SORBONNE
À ESPERA DALGUMA INSPIRAÇÃO DE ÚLTIMO MINUTO.
NADA ACONTECE. RESTA-ME APENAS
ALMEJAR POR MELHOR SORTE COM AS MINHAS EQUAÇÕES.
PS. PENSO QUE SÓ A TEATRAL EVENTUALIDADE DE ACABAR POR ENCONTRAR O TAL GUARDANAPO, SALVARIA O PERDIDO ÁTOMO DE POESIA (E POUPARIA O LEITOR DA LEITURA DESTE HETEROGÉNEO POEMA). INFELIZMENTE TAL NUNCA OCORREU. RESTA-ME EVITAR OS GUARDANAPOS COMO SUPORTE DE FUTURAS LINHAS.
*
S. POST MORTEM
NÃO HÁ COMO DESENHAR O FUTURO NA TELA CLARA DO CÉU ESTIVAL
ENQUANTO AINDA ME ARDE NOS OLHOS O PASSADO.
INCERTO ENTRE SER HABITANTE HESITANTE DE CAMINHOS CIRCULARES E
NAVEGANTE ONÍRICO NO RIO DO PRESENTE
DESCUBRO QUE PARTISTE
SEM DEIXAR ESCAPAR QUALQUER MURMÚRIO DE DOR.
QUE ENLUVADA MÃO INJUSTA SE LEMBROU DE TE SUBTRAIR DOS TEUS
DEIXANDO-ME ORFÃO DA VISÃO DOS TEUS LONGOS CABELOS.
CERTAMENTE A MESMA QUE, POR MEIO DE TERCEIROS, ACABOU
POR ME FAZER CHEGAR A TRISTE NOTÍCIA.
AS PONTAS DOS MEUS DEDOS JAMAIS TOCARAM A SEDA DA TUA PELE
MAS A HARMONIA DA TUA VOZ VIVE AINDA NA MEMÓRIA.
FICÁMOS PARA SEMPRE CIRCUNSCRITOS À TROCA DE OLHARES
E A UMA ATRAPALHADA CHAMADA TELEFÓNICA.
FOSTE UM RISCO NA ALMA.
BELO E CALMO.
DESLIZAREI MINHA PENA, ATÉ AO MEU PRÓPRIO FIM,
NO SULCO PROFUNDO DEIXADO PELA TUA ETÉREA FIGURA.
*
Vocalizações
Vibram naturais cordas que vocais
são o instrumento ressonante
de conquistar pianamente
o consolo da espécie.
Palradas as palavras
cúmplices na inconsciência
de articular-se na espiral
de estarmos no centro.
Ímpar o paradoxo
de estar na solução da equação de onda
o código comum
que nos faz colectivos.
Jangadas as palavras que no sopro da voz
cortam lagos de tinta
na busca de margens duvidosas.
Mais seca a terra que poesia
é a análise espectral da vida.
Aluvial a poesia oculta nas entranhas do mundo
em mecanismos que dispensam palavras
ou as exigem mais modernas.
Automático
o discurso de encontrar o compromisso
entre a utopia e o devir iluminista
dos males o conserto.
O concerto de lamentos
dum uníssono de mortes desprovidas de sentido
no absolutismo de palavras convertidas em enigmas belicosos
exigentes do requiem de avivar memórias.
Declaram as palavras
guerra ao sofrimento anónimo
e cantam estocadas ao âmago
de causas sempre
as mais perdidas.
Secam os sons na derrota total de cada passo
avarias do relógio duma escrita
que são poros de declarações
inevitávelmente estéreis.
Caminhos mórficos no sussuro
de sílabas que são
fórceps de nascer palavras novas
na frescura do verão desfocado.
Maquetas de largas avenidas
num futuro de jardins que são cidades
e espelhos de almejar
o sol de crianças a correr
e paixões com pigmentos do beijo eterno.
*
Oposições
Na busca duma impermeabilidade singular
no oceano da pluralidade de sermos a cada
instante mais numerosos.
Recitar exercícios de disfarçar com a maquilagem de ambiguidades
faces marcadas pela solidão que caminha livremente pelas estradas.
No interior do círculo de dunas
que circunda cada casa
surpreender-se com a expansão acelerada do Universo
enquanto se representam no teatro dos espelhos
vidas interiores que se contraem desesperadamente.
*
PRELÚDIO DE OUTONO
NÃO ERA O AMOR QUALQUER PAZ
ATÉ SENTIR-TE NO CALOR DO SANGUE QUE FLUE
PELOS MEANDROS DA NOITE QUE SE INICIA.
NÃO TINHA O AMOR QUALQUER SUBSTÂNCIA
ANTES DE ESPALHAR-SE NEVE
SOBRE OS CAMPOS EXAURIDOS DO SONHO
E SEMEAR A CLARIDADE MATINAL
NA PENUMBRA DO MEDO.
NÃO ERA O AMOR QUALQUER VERDADE
CIRCUNSCRITO AO EXÍGUO
HORIZONTE DA RAÇA, PÁTRIA, COR OU CLASSE.
NÃO QUERIA O AMOR
MISTÉRIO REVELADO
NAS ESQUINAS DO PASSADO
E SEM HIPÓTESES DE BATER ASAS A QUALQUER INSTANTE.
NÃO SE EXIGE QUALQUER AMOR
NA QUOTIDIANA COMPARÊNCIA
DO CONTRATO MEDICINAL DE PRAZERES EM GOTAS.
ERA O AMOR TACTO
DE PELES QUE REVESTEM
O ÂMAGO DO BEIJO SEMPRE CASTO
REFEITO PELO DESABROCHAR DO DESEJO.
HAVIA MAIS PURO O AMOR
AO SURPREENDER A FELICIDADE SEMI-NUA
RECOSTADA NO DIVÃ DA TARDE
AINDA FRESCA DAS TINTAS DO ARREBATAMENTO.
ERA O AMOR SERMOS MAIS FORTEMENTE
REJEITANDO AS TEIAS DA DESLEALDADE
DEIXANDO-NOS ESTAR NO DESNORTE CALMO
DO LABIRINTO TRANSPARENTE.
AMOR ERA O ÚLTIMO FÔLEGO DA ARAGEM
NO VERÃO QUE SE ENCERRA.
*
Felicidade amarela
Extingue-se a força fogo
para cair-se no calabouço
que se carrega às costas.
Estalam os ossos
acomodados ao conforto
duma infelicidade indefinida
que não se molha à chuva
que não se seca ao Sol.
Parecem quase todos
frequentar terapias para a incapacidade de ser
e por entre quiméricos diálogos
declaram-se perplexos
com a ausência de nexo do sistema.
Sempre sorriem ao evocar
dos chefetes as bizarras doutrinas
no flartar cúmplice de idolatrias patéticas.
Pretendem-se melhores
que os amadurecidos no desencanto
duma anacrónica honestidade.
São certamente mais felizes.
*
Água
Transparentes as águas
que correm fontes de adiar sedes hodiernas.
Turbulentas as águas
carregadas pela gravidade
de miragens encalhadas
no limbo do tempo.
Águas transformadas em névoas
de branquear memórias
e pintar de mistério o desgaste
de equivocadas esperanças.
Salgadas águas no silêncio do útero,
na vertigem de mar aberto
na busca de ilhas perdidas.
Branca água
no fascínio duro do diamante
o gelo,
montanhas doces do planeta-casa os confins.
Tríptico metastável
de escolher destinos
na termodinâmica de vidas
que vibram na teimosia muda de fugir
da inevitável a entropia.
Navegar no instante
ao longo do rumo incerto
cabotagem de cardinalidades incertas
pelas costas de ilusões
e reconhecíveis ondulações no rebentar das ondas.
Subtis murmúrios da chuva estival
interrompendo quase o monólogo constante
duma solidão que se expande
pelas escarpas da loucura.
Perenes moinhos,
defesas varridas
pelas força voraz de águas
que mais céleres destroem castelos de vida
nas certezas de areia.
Águas que na ribeira
são calmas de alisar
linhas turvas
e iluminar sentidos.
Lágrima, saliva e sangue
águas fluxos familiares
de histórias que cessam
escrevendo na superfície
imagens partidas
de poemas inacabados.
*
FOGO
FUGAZ LUME
AS PALAVRAS AFIRMATIVAS
NAS BALADAS
QUE RECITAM O FUTURO.
PURA A CHAMA
QUE PURIFICA
AS CINZAS DO PASSADO
E ESTILIZA ANCESTRALIDADES
DISPERSAS.
FRÁGIL A CIVILIZAÇÃO A QUEIMAR-SE
NA LENTA AGONIA DO FOGO
DE ÓDIOS E AMBIÇÕES.
SEMPRE SOMOS A VOLATIVIDADE
COMBUSTÍVEL DUM DESESPERO
QUE ENFURECIDO PODE
BUSCAR FOGOS OUTROS MAIS TOTAIS.
*
Ar
Primordial o espaço que aberto
fez-se letra-e-cifra, Aleph,
e na leveza dum sopro transmutou a sombra morte-e-mentira - MET
Hêth Mêm
no brilho de ser/estar verdade-e-vida - EMET
Hêth Mêm Aleph.
Cálido o ar que divino animou a matéria bruta
Milhares de milhões de anos na sopa das leis da física
Fósseis que da origem cristalizaram proto-poemas
Ventos
ar-sopros para a vida letras.
*
Terra
Maior o engenho
de calcular a construção de mundos
e te-los sólidos sob os pés.
Escondem grandes milagres os mais ínfimos tufos da deusa Gaia.
Abrigo azul da vida a casa,
Maternidade suprema,
Prancha para mergulho no Universo.
*
Napapiiri
No interior do círculo mais ao norte,
varrendo a tundra
cortando a taiga de abetos e bétulas
distorcendo o céu desenhado na superfície de milhares de lagos:
o vento dum tempo ártico.
O silêncio loiro
duma civilização agressiva na contabildade de cifras
apagando as lúgubres chamas da música
de alhos treinados na subtil classificação das neves.
Não foi a solidão
que emudeceu a dura arte
da caça e da pesca
nem as agulhas dum frio que na alma
se mudou para aldeias de betão.
Foi a mesma tristeza que nos abate
quando entendemos que se perdeu a multiplicidade do branco.
*
ATAQUE
DESVIADOS IRREMISSÍVELMENTE
DO VÍCIO SOLIPSISTA DE HABITAR
PARAÍSOS FÁCEIS
CONSTRUÍDOS A PARTIR DE FICÇÕES E
PAISAGENS VIRTUAIS.
UMA VIOLÊNCIA QUASE ORDINÁRIA
GANHOU ASAS
E ACABOU POR CORROMPER O CÉU.
TORRES DE ASSALTAR O RECANTO DOS DEUSES
SUCUMBIRAM À MULTIPLICIDADE DISCONEXA DOS IDIOMAS.
NO RUBRO DOS ÓDIOS FOI INCINERADO O PÓS-MODERNISMO.
*
NOORDWIJK
ARRASTAVAM-SE NA GARGANTA AS PALAVRAS
DUM MAR CINZENTO E QUASE SÓLIDO
NO SOPRO DE ESQUECIMENTOS FORÇADOS.
DIFUSAMENTE CONSTRUIDA A PRESENÇA
CAPTURADA PELA FUGAZ
IMAGEM ULTRA-SÓNICA.
PERDEU-SE MAIS UM MUNDO
QUANDO O LABIRINTO DAS HIPÓTESES
ESCOLHEU O PONTO NEUTRO DO DESTINO.
CORTOU-O CERTAMENTE O VENTO
QUE DEIXOU OS PASSEIOS COBERTOS PELAS AREIAS.
*
CLEPSYDRA
A PUREZA DA GOTA FLUINDO DESDE O MANANCIAL SECRETO,
A SÍNTESE E FORÇA DAS PALAVRAS LIMITADAS PELA QUEDA DA DERRADEIRA GOTA,
UMA PARA CADA AGORA
PARA CADA ETERNIDADE,
UM VÓRTICE NO RIO DOS FRAGMENTOS
CAPTURADOS PELO INFINITO DE CADA INSTANTE.
A SOMBRA SOB O CARVALHO,
A VIAGEM SEMPRE FINAL,
A VIBRAÇÃO HARMÓNICA DO CRISTAL DE QUARTZO
E DA LINHA DO CÉSIO,
FASES DE CADA FACE
DO REINO PERDIDO DA VIDA.
O CALOR DO PULSAR DO CORAÇÃO DE CADA ESTÁGIO
INOCULANDO NOS MEANDROS DO TEMPO
OS GRÃOS DA VERDADE ÚLTIMA
A COMPLETAR O CICLO.
UMA GOTA ANTES A EQUAÇÃO PERFEITA
UNIFICANDO A VIDA E A SUCESSÃO INDISTINTA DE GOTAS.
NUMA ANTECEDENTE UMA PAIXÃO ENEBRIANTE,
A FRATERNIDADE PLATÓNICA,
A SUCESSÃO E A SEMENTE QUE A MATERIALIZA NO MUNDO.
NÃO HÁ SEDE DE VERDADE
QUE NÃO FIQUE SACIADA
PELA INVENÇÃO ARISTOTÉLICA
DE SE MEDIR O TEMPO,
E NO GOTEJAR GRAVE O SILOGISMO FICARÁ MAIS QUE CONCLUSO.
AS BORBOLETAS MONARCH ATRAVESSARÃO CONTINENTES E MARES
NA SUA JORNADA FINAL,
AS ENGUIAS SEGUIRÃO O CANTO ATÁVICO
E RUMARÃO ATRAVÉS DA POESIA DESCONHECIDA DOS OCEANOS
PARA SE PERPETUAR E PERECER,
AS SUPERNOVAS EXPLODIRÃO E LANÇARÃO SUAS CINZAS
PARA FERTILIZAR A NOSSA CASA LÁCTEA,
OUTRAS MAIS LONGÍNQUAS
REVELARÃO A QUINTA ESSÊNCIA DO MAIS ENIGMÁTICO VAZIO,
BALIZANDO A EXPANSÃO DO ESPAÇO PARA ALÉM DOS CONFINS DA IMAGINAÇÃO.
IMERSOS NA ESFERA DA NOITE PERFEITA,
A MÚSICA SIBILINA DOS ASTROS
FAZENDO-NOS COMPREEENDER A SUMPTUOSIDADE DE SERMOS FILHOS DO COSMOS,
DE TERMOS NO SER PARTÍCULAS DO INÍCIO DOS TEMPOS,
CÉLULAS DOS PRIMÓRDIOS DA VIDA,
DE EVOLUIRMOS, COMO TUDO, SEGUNDO A LEI UNIVERSAL DA DISSOLUÇÃO.
NO LIMITE DO CONHECIMENTO,
NA SUPERFÍCIE DA PELÍCULA ESCURA,
DEIXAREMOS A MARCA DA NOSSA ESPÉCIE
E EXIGIREMOS UMA DIGNIDADE MÍNIMA
PARA SE VIVER NO MUNDO:
CANTAR INCANSÁVELMENTE A RAPSÓDIA DA VIDA
E A MORTE COMO UM DESTINO CALMO,
ESTENDER, PELO MENOS UMA VEZ, A MÃO PARA ALIVIAR A ANGÚSTIA DO PRÓXIMO,
COMBATER APAIXONADAMENTE PELA JUSTIÇA,
AMAR ATÉ AS RAIAS DA LOUCURA, SEMPRE,
DA ALVORADA
AO CREPÚSCULO DA EXISTÊNCIA.
GOTA APÓS GOTA,
PARA NO EXÓRDIO
TER-SE CIÊNCIA DE QUE O TEMPO NÃO É CIRCULAR,
QUE NÃO HÁ UMA SEGUNDA HIPÓTESE
PARA CADA INSTANTE;
QUE O AMOR NÃO SE MEDE PELO ACUMULAR DAS GOTAS
MAS PELA COR DE CADA GOTA,
QUE A VIDA É A GOTA E TODAS AS GOTAS.
NA PRAIA DO TEMPO,
HÁ NA MÚSICA DE CADA ONDA
UMA CALMA INQUIETA
E AS PALAVRAS LEVITAM
NOS CASTELOS DE AREIA DO INEXPRIMÍVEL.
O RELÓGIO DO SR. PESSANHA
NÃO ERA PERFEITO,
O MEU NUNCA SERIA MENOS CREPUSCULAR.
DEIXAREI, QUANDO DO IMPRETERÍVEL ACENO,
ALGUNS DE MEUS ÁTOMOS ESPALHADOS PELO MUNDO:
NOS OLHOS VERDES DE MINHA FILHA UM FRAGMENTO AZUL DE MINHAS MEMÓRIAS,
UMAS POUCAS EQUAÇÕES INCOMPLETAS,
ELEGANTES ATÉ O LIMITE DE MINHAS FORÇAS,
UM POEMA INACABADO.
MAS A LUTA SEMPRE PROSSEGUE ATÉ QUE A GRAVIDADE ARRASTE A GOTA FINAL,
E NAS UNHAS HÁ A TERRA FECUNDA,
A CONTINUIDADE DA ERVA FRESCA,
OS ACORDES DA BALADA ANARQUISTA
O ADAGIETTO DUM MUNDO MELHOR
AINDA QUE NÃO HAJA RESPOSTA SATISFATÓRIA PARA A PERGUNTA,
O QUE SOU ?
NÃO SOU SÓ! SOMOS TODOS !
ENTELÉQUIA,
LINHAS DUM DESENHO CÓSMICO SEM OUTRO PROPÓSITO
QUE NOS FASCINAR COM A BELEZA MÁGICA DE SIMPLESMENTE SER,
HERDEIROS VIRTUAIS DUM PROJECTO QUE CRIOU
PÉTALAS, JARDINS, VENTO, AREIA, NEVE, NÉCTARES E GALÁXIAS.
SOMOS OS LEITORES DO TEXTO INFINITO,
DA FÓRMULA QUE NÃO SE FECHA.
MAS NÃO HÁ QUALQUER DESESPERO,
POIS NA N-ÉSIMA GOTA PERCEBEMOS
QUE O INFINITO PODE TAMBÉM ESTAR CONTIDO
NA PRIMEIRA LETRA DO ALFABETO HEBRÁICO, ALEPH,
ASSIM COMO TODA A HISTÓRIA HUMANA
NO SORRISO DUMA CRIANÇA.
QUE MAIS SE PODE DIZER ?
QUE AS GOTAS SUCEDEM-SE INEXORÁVELMENTE
E QUE A JUSTEZA DA DESCOBERTA
INDUZ APENAS UMA SOLIDÃO CALMA ?
O SOL NÃO SÓ SE PÕE TODOS OS DIAS,
MORRE LENTAMENTE
MAS APESAR DO QUOTIDIANO DESASTRE
SABEMOS QUE NO CREPÚSCULO
TODA PAIXÃO
TEM A PRIMAVERA NOS CABELOS
E QUE O ENTRELAÇAR DE BRAÇOS
É PERENE
COMO O ARDOR DO BEIJO
E A HUMIDADE DO SEXO.
O JÁ APRECIÁVEL CAUDAL DO MEU TEMPO,
AS FISSURAS NA FACE,
E AINDA TANTAS PEÇAS DE VERDADE POR SE ENTENDER,
MONTANHAS POR SE REMOVER,
E O SANGUE SEMPRE A FERVER
NA PROCURA INCESSANTE DAS RESPOSTAS.
ESTAVA, ESTOU, ESTAREI CONDICIONALMENTE.
ERA FORTEMENTE, SOU DEBILMENTE, CESSAREI.
CONSCIENTEMENTE, SOMOS MUITO FUGAZES NESTE MUNDO,
SÓ NOS RESTA SERMOS PLENAMENTE.
ESTE É O AXIOMA MAIS EVIDENTE DO MEU PRECÁRIO DISCURSO,
A ESSÊNCIA DA MAIS VORAZ LIBERDADE,
DO MAIS ABRANGENTE SONHO.
*

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